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Introdução

A questão da Pastoral é, a meu ver, um dos desafios mais urgentes para trabalhar essa integração (certamente outro é Emilio E. Castro). Costas afirma que a pastoral latino americana, por ausência de uma compreensão missiológica, é uma pastoral: de repetição, profissional e eclesiocêntrica (Costas 1973:79-81). De repetição porque foi (e às vezes ainda é) uma disciplina que repetiu os modelos norte-americanos e europeus. Profissional porque personalizada em um único indivíduo: o pastor. Eclesiocêntrica porque o labor dessa pastoral não é da igreja para o mundo mas da igreja para a igreja.

 

Neste sentido, devemos notar que a Reforma Protestante foi, e continua sendo, um marco histórico e divsisório na história da igreja cristã. Suas conseqüências até hoje podem ser percebidas e reconhecidas na igreja. Uma das questões que a Reforma Protestante não conseguiu trabalhar com mais profundade e abrangência foi a eclesiologia e conseqüentemente, a missão pastoral da igreja. É comum ouvir o comentário que a doutrina do sacerdócio universal de todos os crentes não conseguiu ser mais que uma teoria (não saiu do papel), tendo a igreja, até os dias atuais, uma exagerada ênfase no clero em detrimento ao “laicato”. Ao longo da história, notam-se ministérios e ordens que surgiram “fora” da igreja, ou seja, fora da estrutura de poder, sendo movimentos que surgiram na periferia. Dr. Pierson defende uma tese que diz “que renovação e expansão são freqüentemente vistos como tendo início na periferia das estruturas eclesiásticas dos dias atuais” (Pierson 1996:15). Por exemplo, a própria Reforma e as atitudes dos reformadores não surgiram do centro para a periferia mas da periferia para o centro, sendo ela uma busca por revitalização da igreja que envolvia questões teológicas profundas.

 

Muitas ordens e ministérios foram e são conseqüências de movimentos que vieram da periferia. Um outro exemplo muito claro são “Os Franciscanos”(como também os Dominicanos). Boff afirma que

A experiência eclesial de Francisco é extraordinariamente sugestiva para os dias atuais no qual vivemos. Mais e mais, a Igreja, como uma totalidade, está se movendo do centro para a periferia. Ela gradualmente está entrando no mundo do pobre, tornando possível para eles também sentirem que são Igreja... Esse processo de encarnação é somente possível com a grande coragem do Evangelho e a liberdade do Espírito, como no caso de Francisco de Assis (Boff 1982:127)

 

Meu desejo neste estudo é analisar Francisco de Assis, como sendo um movimento de periferia, que se tornou um modelo de pastoral a ser seguido por nós também.

 

Antes de olharmos para Francisco de Assis, necessitamos primeiro definir o que vem a ser “pastoral” e, a partir dessa definição, voltarmos para Francisco de Assis e entender como podemos ser desafiados para uma pastoral que possua desafios similares para os dias de hoje.

 

 

Uma breve definição de “Pastoral”

 

Neste trabalho, ao falarmos de “pastoral”, estamos falando basicamente da missão da igreja em perspectiva pastoral. Costas disse que “sem pastoral a teologia se trunca” (in Bonino 1975:83). Neste mesmo sentido, Karl Rahner fala que “toda teologia deve ser pastoral e toda pastoral deve ser teológica” (Hoch 1993:14). Concordo plenamente com ambos e acrescentaria que “sem pastoral, não só a teologia, como também a missiologia se trunca”. A pastoral é portanto missão como um todo e não exclusivamente a tarefa do pastor. Pode incluir, mas vai muito além, sendo uma tarefa de todo o povo (sacerdócio universal de todos os santos) para todas as pessoas. Marcio Silva entende que “necessitamos elaborar um ministério pastoral a partir da Cristologia, com o conceito de pastoral, que resgate aquilo que se perdeu na história, que é o sacerdócio universal” (Silva 1994:9)

 

Desta forma, podemos entender por pastoral como sendo a praxes do cristão. Segundo Galilea afirma que “a pastoral não é outra coisa que a missão da igreja, e a razão de ser a igreja é missão” (Galilea 1974:45). Se por um lado pastoral não é de exclusividade do pastor/a, também não é propriedade de uma única instituição: é tarefa do povo de Deus em missão. É importante afirmar isto porque muitos seminários, especialmente os que servem as denominações, sentem-se os “donos” da formação pastoral. Essa não é uma generalização, porque a maioria dos seminários tem como, preocupação básica “formar pastores”(e, mais raramente pastoras) para a própria denominação. Raros são os seminários que tem como prioridade e meta formar agentes de pastorais para todos os ministérios da igreja e necessidade da sociedade. São raros, mas existem. Os seminários surgiram basicamente para aprimorar o dom de pastor. Eles estão certos naquilo que incluem, mas reducionistas por aquilo que excluem. Às vezes, penso que é um desperdício para o Reino de Deus gastar tanto tempo e dinheiro para suprir apenas um dom: o de pastor. E, quanto aos demais? Isso é, ao meu ver, uma grave denúncia contra a nossa eclesiologia. Se faz importante perguntar: quem serve quem? E ainda, quem está a serviço de quem? Se os seminários estivessem realmente a serviço da missão da igreja, então cada vez mais encontraríamos ali pessoas se preparando, não somente para serem pastores(as), missionários(as), evangelistas e educadores(as), mas também pessoas com os outros dons mencionados na Bíblia. A boa nova é que começam a surgir esse tipo de seminários. Quão radical e diferente seria o envolvimento da igreja na sociedade, seja para ser luz (a esperança da salvação) ou sal (a esperança da transformação) se a nossa visão fosse que “todos” os crentes são agentes de pastoral na sociedade. Quem é o agente de pastoral hoje? Infelizmente, o próprio pastor, que ao mesmo tempo prega, instrui, exorta, aconselha, visita e evangeliza. Quanto mais ministérios remunerados tivermos na igreja, não será prova do sucesso financeiro da mesma, mas prova de que nela existem muitos que fazem pouco (os membros) e poucos que fazem muito (os pastores ou obreiros/as remunerados/as). Essa falta de visão do crente como agente de pastoral se dá por conta de uma visão distorcida da eclesiologia e a alta visibilidade dos ministros e ministérios “profissionais”. Resultado: igreja clerical. Neste sentido, José Rubens Jardilino fala da teologia como sendo “um exercício para orientar a prática e uma prática visando corrigir a teoria” (Jardilino 1993:21). 

Uma vez definido o que é pastoral, olhemos para Francisco de Assis e seu modelo de pastoral. 

 

Francisco de Assis: seu contexto e sua história

 

Francisco nasceu em Assis, uma pequena mas populosa cidade na Itália, em 1181 (ou 1182?) e morreu no mesmo lugar em 1226, tendo a breve vida de 45 anos. Seu nome era Giovanni di Pietro di Bernardone, recebido no batismo, que depois passou a ser Francesco, ficando mais conhecido como Francisco de Assis (nome da sua cidade). Era filho de pais ricos, que trabalhavam no mercado de roupa. Seu pai era Pietro Bernadone e sua mãe Madonna Pica, filha da nobreza de Provence. Gastou sua juventude com futilidades da vida: muito dinheiro, roupas finas, mulheres, e o luxo da nobreza. Ele vivia, diz Boff, como um ‘boêmio menestrel’, tornando-se o líder de uma sociedade jovem libertina” (Boff 1982:66). Mas já nesta época, ele possuía coração sensível para com a pobreza.

 

A questão da pobreza não surge do nada em sua vida. Alguns antecedentes históricos nos mostram como Francisco de Assis foi cada vez mais ficando devoto à pobreza. A Europa de sua época era um continente em profundas mudanças e transformações. Ela entrava na Idade Média e estava mudando do sistema feudal e rural para uma sociedade mais urbana, onde especialmente o comércio se despontava com muita vitalidade. Por meio do Feudalismo, começa a surgir a classe média. Em termos religiosos, os hereges estavam próximos do clero e pouca distinção havia entre eles. A falta de zelo e de renovação da igreja eram visíveis. Surgem também as Cruzadas e inquisições para se tentar forjar um estilo a força, pois o triunfo das cruzadas era na verdade o “triunfo da fé”.  Basílio da Bulgária (Basil of Bulgária) é queimado em Constantinopla e Arnaldo de Brescia (Arnold of Brescia) é executado em Roma porque disse que a igreja e seus líderes deveriam dar todas as suas propriedades. Pedro Waldo, como o pai de Francisco, era um mercante rico do Sul da França, que acolhe em sua vida o evangelho da pobreza e começa a pregar para os pobres da França. Os seguidores desse movimento são mais tarde chamados de “os pobres de espírito” (Waldenses). Este movimento tomou popularidade especialmente entre as pessoas relacionadas com o mercado de roupas. neste contexto nasce Francisco, na cidade de Assis, que pertencia ao chamado Santo Império Romano. Os Waldenses são considerados “heréticos”. Inocêncio III foi eleito bispo de Roma (Janeiro de 1198) e Assis agora está sob o domínio Papal. Começa uma guerra civil em Assis porque a classe média acredita que o Bispo de Roma não iria conseguir proteger a classe alta. Começa também a guerra entre Assis e Perugia. Perugia era totalmente pró-papa. Nesta guerra, Francisco foi ferido logo na primeira batalha e vai como prisioneiro em Perugia, ficando na prisão mais de um ano. Na prisão fica doente, e é solto por intermédio do prestígio de seu pai. Durante esse período de enfermidade, uma febre constante, ele começa a pensar mais sobre a eternidade. Porém ao se recuperar da enfermidade, suas aspirações militares voltam e ele resolve abraçar a carreira militar. Na noite anterior da partida para guerrear em Apulia, ele teve um sonho no qual ele via um grande corredor decorado com armas. Essas armas tinham a marca da cruz e ele ouviu uma voz que dizia: “Estas armas são para você e seus soldados”. Então ele exclamou: “Eu sei que eu serei um grande Príncipe”. Com este sonho ele parte para Apulia. Porém, em Spoleto ele novamente fica enfermo e outra vez tem um sonho dizendo para ele voltar para Assis. Essa visão é um marco em seu desejo a vida religiosa, regressando em 1205. pouco tempo depois, estava ele orando na Capela de São Damião, diante de um crucifixo antigo, e ele ouve uma voz que dizia: “Vai, e restaura a minha casa a qual está em ruínas”.  Ele corre para a loja de seu pai, conta o que aconteceu e pega algumas peças de roupa. Vai ao mercado e vende essas roupas e também o cavalo para começar a reconstrução da Capela de São Damião. Enfrenta rejeição dos amigos, família e também do clero. Diz a seu pai: “Hitherto eu tenho chamado você na terra; de agora em diante meu desejo é dizer somente ‘Pai nosso que estás no céu”. Agora, saia ele pelas ruas de Assis cantando e dizendo “eu sou um arauto do grande Rei”, e casa-se então com a “Senhora Pobreza”. 

 

Certo dia, na pequena Igreja Portiuncula, ele ouviu o Evangelho do dia, o qual dizia

 

A estes doze enviou Jesus, dando-lhes as seguintes instruções... Não vos provereis de ouro, nem de prata, nem de cobre nos vossos cintos; nem de alforje para o caminho, nem de duas túnicas, nem de sandálias, nem de bordão: porque digno é o trabalhador do seu alimento (Mat. 10.1,9-10).

 

Daí em diante, sua vida foi radicalmente comprometida pela simplicidade e pobreza, seguindo literalmente o que Jesus prescreveu aos seus discípulos ao saírem para os campos missionários.

 

Certamente pode-se afirmar que Francisco de Assis foi um homem rico que fez opção pela simplicidade e pobreza, buscando em Cristo o modelo para sua vida e posteriormente sua Ordem – a Ordem dos Franciscanos. Essa ordem (como também os Dominicanos), com uma nova dinâmica espiritual, traz uma revitalização dos mosteiros existentes. Os mosteiros não mais poderiam ser um centro apenas de reclusão, mas um centro de onde a pessoa iria para ser treinada, preparada e depois enviada ao mundo pra pregar e viver o evangelho do Reino. Por esta razão, os Franciscanos tiveram uma forte visão missionária e prática do Evangelho. Francisco de Assis desenvolveu uma pastoral  naquele tempo que ainda hoje continua sendo um grande desafio para a igreja. olhemos, portanto, para algumas características da pastoral Franciscana.

 

1. Uma pastoral que imita a Cristo

 

Um dos versos prediletos de Francisco era “porquanto para isto mesmo fostes chamados, pois que também Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos” (I Ped. 2:21). Imitar a Cristo era seu alvo. Em seu Testamento ele diz: “Nós O adoramos, Senhor Jesus Cristo, aqui em todas as igrejas do mundo inteiro, e nós o santificamos, porque pela Sua cruz tem redimido o mundo”. Costas afirma que

 

O centro de gravidade de uma reflexão pastoral da igreja para o homem latino americano deverá ser, então, Cristo presente por seu Espírito na situação pastoral concreta... Daí a pertinência do Cristo pneumático como critério de verificação da situação pastoral (Costas 1973:87).

Lee, pastor coreano, que em 1985 recebeu seu Doutorado em Missiologia no Fuller Theological Seminary, escreveu sua tese sobre “Os Princípios e Práticas da Missão Franciscana no Século XIII”, confirma que 

 

a imitação de Cristo era a base sobre a qual eles construíram sua vida cristã. eles tinham um ardente desejo para obedecer os ensinos bíblicos literalmente, especialmente os ensinos de Cristo... A expedição missionária e evangelística de Francisco era uma expressão do seu zelo pela vida vivida por meio da imitação de Cristo (Lee 1985:4-5).

 

O alvo de Francisco era imitar a vida e ministério de Jesus. Ele compreende que esse modelo possuía as seguintes características: humildade, simplicidade, pobreza, obediência e oração. Essas características podem ser entendidas da seguinte maneira:

 

1.    Humildade: uma prova de quebrantamento interior

2.    Simplicidade: uma prova de desprendimento

3.    Pobreza”uma prova de compromisso

4.    Obediência: uma prova de submissão

5.    Oração: uma prova de dependência

 

Ao meu ver, essas também devem ser marcas distintas para a pastoral atual. Vivemos em uma sociedade onde cada vez mais o individualismo, a tecnologia e o dinheiro são alvos buscados. A pastoral que não é humilde, que não busca ser quebrantada, será como o sacerdote e o levita da parábola do Bom Samaritano, que passou ao largo, sem importarem com a realidade e condição do caído. Viver nos dias atuais sem quebrantamento é o mesmo que não se importar com a dor alheia. Na pastoral da Jesus havia espaço para os quebrantados. Jesus disse: “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu, para pregar boas novas aos quebrantados, enviou-me a curar os quebrantados de coração...”(Is. 61:1).

 

“Para Francisco, o Evangelho é Cristo” (Boff 1982:25).

 

2. Uma pastoral para a vida humana e a vivência do Evangelho

 

“Não palavras, mas ação” ou seja, “vive o Evangelho”, esse era o lema de Francisco de Assis. Neste momento temos que pensar a respeito do “locus” dessa pastoral. Dois perigos se nos apresentam. Primeiro, fazer do ser humano esse locus, correndo o risco de se tornar uma pastoral antropocêntrica. Segundo, fazer da igreja o locus pastoral e então cair no eclesiocentrismo. Costas sugere que “buscamos uma pastoral da igreja para o homem latino americano”(Costas 1973:86).

 

Ao estudar a vida de São Francisco fica claro sua opção pela vida. Nele encontramos a valorização do ser humano como também a valorização da natureza. O sistema ecológico não foi esquecido por ele. Para ele, a reconciliação do ser humano com Deus deveria resultar também na reconciliação com a natureza. Em suas orações e cântico sempre encontramos uma relação com a natureza, como por exemplo em seu famoso “Cântico do Irmão Sol”.

 

Ao meu ver, a questão da pastoral voltada para vida como um todo é essencialmente uma questão de qual é a nossa visão sobre o “mundo”. geralmente, o mundo é visto nos círculos evangélicos, de maneira negativa e demoníaca. O mais importante é a salvação vertical, ou seja, a salvação do indivíduo. Por isso, a palavra “alma” ocupa um lugar de destaque na pastoral evangélica. Por sua vez, a palavra “corpo” e “natureza” continuam na periferia. A pastoral evangélica muitas vezes se formou como sendo “anti-católica”. É comum, no Brasil, ouvir as pessoas dizerem: “Isto cheira catolicismo”. 

Paulo diz que a natureza aguarda com ardente expectativa o dia da sua redenção 9cf.Rom. 8.18-25). Também diz a criação vive na esperança de ser redimida do cativeiro da corrupção e que toda a criação a um só tempo geme e suporta as angústias até agora. Necessitamos mudar a nossa visão sobre o mundo. o mundo, como sistema de valores, está debaixo da influência satânica. O mundo, como criação, é de Deus, o qual será restaurado em “novo céu e nova terra”. Não mais é tempo de se falar de uma pastoral parcial, diminuta e exclusivista. É tempo de integração e integralidade. Isso significa uma pastoral voltada para a vida e o ser humano. Uma pastoral além dos horizontes eclesiásticos.

 

3. Uma pastoral onde os pobres não são esquecidos

 

Robinson diz que “esta heróica imitação da pobreza de Cristo era talvez a marca distintiva da vocação de Francisco, e ele foi indubitavelmente, como Bossuet expressou, o mais ardente, entusiástico e desesperado amor pela pobreza que o mundo já viu” (Robinson 1913:13)

 

 

Muito conhecida ficou sua frase: “Eu me casei com a Senhora pobreza”. Se ele encontrasse alguma pessoa mais pobre do que ele, então ele mesmo se tornava mais pobre do que aquela pessoa. Para ele, ser pobre era uma questão de imitar a Cristo que “não tinha onde reclinar a cabeça” (Mt. 8.20). Se  assim vivia Cristo, assim também deveria viver os seus servos e servas. Outro verso muito importante que influencia sua vida para a pobreza,  imitando Cristo, é que ‘Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor a vós, para que pela sua pobreza vos tornásseis ricos” (II CO. 8.9).

 

“Os pobres sempre os tendes convosco”(Mt. 26.11), disse Jesus. A questão central aqui não é despreza-los porque eles sempre serão muitos, mas responder a Judas, que, tinham uma “pseudo preocupação” com os pobres. Possivelmente Judas via naquele perfume caro uma boa oportunidade para fazer dinheiro e saquear a bolsa, pois “tirava o que nela se lançava” (Jo. 12.6). Infelizmente muitos “usam” este texto para se desculpar e citam o próprio Jesus dizendo que ele falou que sempre haverá pobres no mundo. A questão aqui é como desenvolver uma pastoral consciente onde os pobres, mesmo sendo muitos, não são esquecidos. O esquecimento dos pobres pode ser visto no seguinte processo.

 

Indignação

Nos sentimos indignados com a situação de miséria e falta de respeito para com aquelas pessoas que se encontram em situações precárias. Sentimo-nos horrorizados, até mesmo escandalizados, porém parece que não temos força suficiente para reverter esse quadro e para mudar a situação. Esta indignação muitas vezes leva-nos a reuniões, em que muito se discute, muito se fala, muito se pensa, e pouco se faz. Normalmente estas conversas e discussões logo caem no esquecimento, ou tomam novas direções se outro fato ocorrer e for mais indignante que o primeiro. Assim, o círculo vicioso mais uma vez tem início, com novos motivos de indignação. A indignação, se não nos levar à uma ação concreta, conseqüentemente leva-nos a “impotência”. 

 

Impotência

Ficamos horrorizados, mas ao mesmo tempo nos sentimos impotentes, incapazes de fazer alguma coisa. Surge aquele sentimento do tipo “não posso mesmo, deixa para lá”. Exemplo: “O tráfico de drogas é um problema muito sério, mas é de responsabilidade da Polícia Federal, não tenho nada a ver com isso, e muito menos tenho autoridade para fazer algo. Os meninos de rua, se o governo não faz nada, quem sou eu para fazer”. E assim por diante, crescendo sempre este sentimento de impotência e de impossibilidade. Este sentimento leva-nos a esquecer o problema, até nos deparamos com outro que nos escandalize, mas sempre com aquele sentimento de impotência, levando-nos para o próximo passo, a “indiferença”.

 

Indiferença 

Logo a consciência vai ficando cauterizada. Não mais nos importamos com o que está acontecendo com os outros, nos tornamos indiferentes aos problemas que afetam a sociedade em que vivemos. Gradativamente vamos nos “conformando com este século”. Essa indiferença também é fruto de um sistema individualista que vive a chamada sociedade moderna e capitalista. Nosso egoísmo é muito forte., e tira a nossa atenção do próximo, do “outro”,  fazendo-nos voltar nossos olhos para nós mesmos. Com isso o problema do “outro” é “problema dele, e eu não tenho nada a ver com isso”. Assim a indiferença se torna característica peculiar em nossas vidas, dando lugar a morte de nós mesmos, que é a perda da “sensibilidade”. 

 

Insensibilidade 

E culminando na “morte” de nossa sensibilidade as crises enfrentadas pelo próximo, passam de largo sem ao menos nos sensibilizar com a situação do caído. Vejo que este estágio é o pior, pois nos tornamos tão insensíveis, que nada mais pode provocar em nós, reações que nos leve a empatia e à misericórdia. Nos tornamos como pedras,e nossa frieza e insensibilidade são enormes.

 

Indignação, impotência, indiferença e insensibilidade (coincidentemente quatro I’s) são fatais conseqü6encias de um sistema injusto, onde os pobres são cada vez mais esquecidos e desprezados. Erikson afirma que Francisco ‘reconheceu que possessões e dinheiro são símbolos de uma formidável barreira” (Erikson 1970:74). Francisco entendia que o único que possui todas as coisas é Deus, o criador.

 

Boff descreve cinco características que nos ajudam entender porque não devemos nos esquecer dos pobres ( Boff 1982:59-64). Porque 

 

1.    A pobreza é um mal, que produz ausência de significados

2.    A pobreza é um pecado de injustiça

3.    A pobreza deve ser um estilo evangélico de vida – total disponibilidade

4.    A pobreza deve ser uma virtude que se libera dos bens materiais

5.    A pobreza deve ser uma expressão do amor pelo pobre contra a sua pobreza

 

Desta maneira foi que Francisco de Assis entendeu  a pobreza. Sem essa compreensão é muito difícil desenvolver uma pastoral onde os pobres não são esquecidos. Muito significativa foi a palavra de recomendação dos Apóstolos a Paulo e Barnabé, no sentido de eles “se lembrassem dos pobres” em seus ministérios (Gl. 2.10). Grande continua sendo esse desafio aos pastores e agentes pastorais da igreja para este próximo milênio. Uma coisa é certa: a pobreza será ainda maior. Como Paulo, nossa atitude e resposta a esse desafio deve ser a de imitá-lo, quando afirmou: eu ‘me esforcei por fazer” com que os pobres não fossem esquecidos em meu ministério.

 

 

4. Uma pastoral que busca a fraternidade e identidade (significados)

 

A quem deve ser essa pastoral? Individuo ou comunidade? A pastoral evangélica sempre olhou mais para o indivíduo por que também esta centralizada em um indivíduo, o pastor. Portanto, é uma pastoral não tanto voltada para os ministérios da igreja, mas focalizada no carisma pessoal do pastor. Por sua vez, a pastoral católica esta mais voltada para a coletividade (povo, massa). Aqui não se fala de agente, mas agentes pastorais. Entende-se esta pastoral mais por ministérios do que ministério. Ambas possuem riscos, vantagens e desvantagens. Uma dos perigos na pastoral evangélica é a ênfase excessiva na função pessoal que pode gerar um individualismo alienante. Essa pastoral (bem como o pastor) acaba sendo consumida pela comunidade, sendo excessivamente eclesiocêntrica. Por isso a necessidade de se trabalhar com indivíduos, mas também com grupos. A mobilização do povo é algo extremamente desgastante neste tipo de pastoral, pois o sentido aggiornamento é fraco. O corpo local existe, mas sem uma forte conscientização do coletivo. Do lado católico, um dos sérios riscos na pastoral voltada para a massa é que ela pode produzir uma ação de despersonalização. Perigo de anular pessoas em função de estruturas.

 

O exemplo de Francisco de Assis é um modelo que pode nos ajudar a entender e resolver esse conflito. Essencialmente a ação pastoral de Francisco de Assis está relacionada com a palavra fraternidade (fratello). Onde existe fraternidade envolvida em amor, há atenção tanto para o indivíduo como para a comunidade. A comunidade existe por causa dos indivíduos e os indivíduos existem para a comunidade que serve ao mundo. A comunidade, para Francisco de Assis, deve ser marcada pelo relacionamento fraterno. Boff diz que esses “relacionamentos não devem ser hierárquicos, de uma fonte de poder, mas absolutamente fraternal”. A questão da hierarquia é eminentemente uma questão de poder. Onde há excesso de poder há a manipulação e ausência de liberdade e fraternidade. Uma igreja fraterna é uma igreja construída na base de serviço e ministério, onde todos possuem os mesmos direitos e privilégios. A idéia de Francisco era uma fraternidade onde alguns eram sacerdotes (que deviam ser servos humildes), mas todos irmãos (friars).

 

Todos devem ser minores, humildemente prontos para lavar os pés do outro. Suas obrigações familiares incluíam o amor responsivo para cada necessidade, que seja física ou espiritual. A fraqueza de cada um era o desafio de compaixão e reclamava o esforço de todos (Petry 1964:139-140).

 

Podemos destacar as evidências marcantes da fraternidade vivenciada por Francisco de Assis:

 

1. Uma fraternidade marcada pelo exemplo de vida

A vida que o evangelho reclama é profundamente caracterizada pelo modelo de Cristo. Imitamos a Cristo para que o mundo veja o modelo a ser seguido. “Era um princípio de evangelismo pelo exemplo de vida aplicado para os cristãos ao arrependimento e chamado os não-cristãos a salvação” (Lee 1985:5). Muito de falta de exemplo me compromisso nos dias atuais estão relacionados com a falta de coerência entre aquilo que o Evangelho reclama e nossas atitudes individuais e coletivas. È a distância entre o que se prega e o que se vive. Prega uma coisa e vive outra. Podemos afirmar que Francisco de Assis optou por uma coerência radical em sua vida. Por exemplo, ele entendeu que o dinheiro o desviava de servir a Deus com fidelidade. Radicalmente, em voto de pobreza, abandonou suas posses materiais para viver exclusivamente pela fé.

 

 

2. Uma fraternidade marcada pela felicidade comum

Para Francisco de Assis, a verdadeira Perfeita Amizade (como ele assim chamava) não significava ausência de sofrimento e perseguição, pelo contrário, é em meio aos sofrimentos, perseguições e dificuldades na vida que se deve expressar a verdadeira felicidade.   Não é exatamente este espírito de Jesus ao dizer que no mundo temos aflições, mas que deveríamos ter bom ânimo, porque ele venceu o mundo (Jô 16:33). Em meio as aflições da vida é que devemos ser exemplos de perfeita alegria, porque estas circunstâncias não podem roubar o fruto do Espírito que em nós foi colocado: a alegria (Gl 5:22). O reino de Deus em nós é a verdadeira expressão dessa perfeita alegria, porque o Reino de Deus consiste também em alegria (Rm 14:17). Certo dia Brother Leo, depois de ouvir Francisco dizer muitas vezes sobre essa Perfeita Alegria disse: “Pai, eu imploro em nome de Deus, diga-me o que é essa perfeita alegria?”. E Francisco responde assim:

 

Se nós desesperadamente temos fome e frio, batemos insistentemente na porta, gritamos, e imploramos para ele, no nome de Deus para abrir a porta e deixar-nos entrar, e ele, insensivelmente, diz para ele mesmo, “Esses tipos são insistentes pessoas preguiçosas e necessitam aprender uma lição muito preciosa em suas vidas”, e vem nos atender com um chicote e agarra-nos pelo capuz e nos atira na neve e nos bate sem misericórdia, e nós suportamos tudo isso com paciência e alegria enquanto pensamos no sofrimento do amado Cristo e como não poderíamos imitá-lo – isso, Irmão Leo, você deveria escrever como perfeita alegria (Cunningham 1972:165-165).

 

Esse artigo é de autoria de Jorge Henrique Barro. Você tem permissão para usar, desde que citada a fonte.

A presente reflexão diz respeito à porta dos fundos da igreja. Muitas pessoas entram na igreja e muitas pessoas também acabam saindo. A maior parte dos pesquisadores do crescimento da igreja analisa as avenidas que dão acesso à igreja. Isso certamente é necessário para se entender o que faz com que as pessoas busquem uma determinada igreja. Em contrapartida, é necessário haver um interesse e uma preocupação por parte dos pastores e pesquisadores na área do crescimento em relação à porta dos fundos. Caso contrário, a busca pelo crescimento pode ser interesseira, apenas numérica, tendo o membro como um número estatístico. Mais cedo ou mais tarde essa pessoa perceberá que não passa de um número a mais ou menos em sua igreja. Como resultado, vai aos poucos se aproximando da porta dos fundos, para então passar por ela e acabar saindo.

 

A presente reflexão focaliza as causas que levam as ovelhas a se perderem em função das decepções. Quais foram as dificuldades por elas enfrentadas? Quais são os motivos de suas frustrações e desilusões? Por que as pessoas se decepcionam com suas igrejas? Quais os principais motivos que levam as pessoas a abandoná-las? Essas são perguntas honestas que não deveríamos ter medo de procurar as respostas. Hoje existe um grande número de pessoas espalhadas nas cidades brasileiras que se encontram decepcionadas, desiludidas, desapontadas e desencantadas com a igreja.

 

PALAVRAS-CHAVES: Porta dos fundos, causas da decepcão, desilução, desapontamento e desencantamento com a igreja.

 

Abstract

The present reflection analyses the exit door of the church. Many people enter at the church and many people also end up leaving it. The majority researchers of church growth analyze the avenues to enter in the church. That certainly is important to understand the reasons why people come to the church. On the other hand, it is necessary to have an interest and preoccupation, by the side of the pastors and researchers, on area of church growth in relation to the exit door. Otherwise, the search for growth may be self-seeking, barely numerical, having the member as number in the statistic. Sooner or later this person will realize that he/she is just a number that increase or decrease the church. As a result, he/she slowly approaches the exit door, walking through it, and finish leaving.

 

The focus of this present reflection is the causes that conduct the sheep to get lost related to the deceptions. What have been the difficulties for them to cop with? What are the reasons of his frustrations and delusions? Why people get disap¬pointed with their churches? What are their reasons for leaving? Those are honest questions that we could not be afraid to search the responses. Today there is a big number of people spread in the Brazilians’ cities that find themselves disap¬pointed, disillusioned, disenchanted, and let-down with the church.

 

KEYWORDS: exit door, disap¬pointment, disillusionment, disenchantment, and let-down with the church.

 

Introdução

A presente reflexão diz respeito à porta dos fundos da igreja. Muitas pessoas entram na igreja e muitas pessoas também acabam saindo. Muito mais agradável é refletir sobre a porta de entrada do que a porta dos fundos. A maior parte dos pesquisadores do crescimento da igreja analisa as avenidas que dão acesso à igreja. Isso certamente é necessário para se entender o que faz com que as pessoas busquem uma determinada igreja. Em contrapartida, se não houver um interesse e uma preocupação por parte dos pastores e pesquisadores na área do crescimento em relação à porta dos fundos, essa busca por crescimento pode ser interesseiro, apenas numérico, tendo o membro como um número estatístico. Mais cedo ou mais tarde essa pessoa perceberá que não passa de um número a mais ou menos em sua igreja, e assim vai aos poucos se aproximando da porta dos fundos, para então passar por ela e acabar saindo.

 

Um pastorado que não busca refletir e entender os motivos que as pessoas possuem para sair da igreja é um pastorado sem a perspectiva do cuidado. Cuidar é se importar. Se o pastor se importa com as ovelhas, ele certamente proporcionará ambientes para que esse cuidado pastoral possa existir em sua igreja. Muitos pastores não querem refletir sobre a porta dos fundos porque necessariamente terão que enfrentar críticas, problemas e opiniões contrárias. Essas pessoas são tidas como anarquistas, desobedientes, insubmissas, não-espirituais e, por vezes, perturbadoras do ambiente. Sempre temos a tendência de nos afastar das pessoas que são críticas, como de afastá-las do nosso convívio. Para se estudar a porta dos fundos é necessário então honestidade e transparência. Muitas das críticas e dos motivos que essas pessoas levantam acabam questionando a liderança pastoral, a estrutura da igreja, sua liderança, as situações conflitivas da igreja e também o testemunho dos membros.

 

Esse tipo de reflexão traz um certo desconforto e possíveis irritações. Porém, a motivação aqui exposta não é fruto de amargura, pessimismo, insucesso, ou coisas parecidas. O que motiva é o cuidado pastoral amoroso para com aquelas pessoas que Deus colocou em nossa responsabilidade. Devemos ser motivados pelo caráter do Pai que “não quer que nenhum destes pequeninos se perca” (Mt 18:13). Um pastorado que não se preocupa com a ovelha perdida é uma prova evidente que sua obsessão maior está nos números. Não podemos permitir que o número das noventa e nove nos leve a ignorar aquela uma que se perdeu. Alguns pensam assim: “ainda me restam noventa e nove”! O que deve nos motivar a refletir sobre este assunto é o exemplo de Jesus, que pergunta:

 

Qual de vocês que, possuindo cem ovelhas, e perdendo uma, não deixa as noventa e nove no campo e vai atrás da ovelha perdida, até encontrá-la? E quando a encontra, coloca-a alegremente nos ombros e vai para casa. Ao chegar, reúne seus amigos e vizinhos e diz: Alegrem-se comigo, pois encontrei minha ovelha perdida (Lc 15:4-6).

 

Possivelmente esse é um dos raros textos em que Jesus nos ensina a contar as ovelhas. Contar não no sentido de apresentar um relatório no final do ano para as assembléias, comitês e concílios, demonstrando o sucesso pastoral e ministerial. Contar como prova do nosso cuidado e preocupação para com as ovelhas que saíram do convívio das demais.

 

A presente reflexão focaliza as causas que levam as ovelhas a se perderem em função das decepções. Quais foram as dificuldades por elas enfrentadas? Quais são os motivos de suas frustrações e desilusões? Por que as pessoas se decepcionam com suas igrejas? Quais os principais motivos que levam as pessoas a abandoná-las? Essas são perguntas honestas que não deveríamos ter medo de procurar as respostas. Hoje existe um grande número de pessoas espalhadas nas cidades brasileiras que se encontram decepcionadas, desiludidas, desapontadas e desencantadas com a igreja.

 

A seguir são apresentadas algumas causas que levam as pessoas a ficarem decepcionadas com a igreja. Essas causas foram extraídas de duas pesquisas.

 

A primeira, da LifeWay Resarch, que se encontra no site: www.lifewayresearch.com. Trata-se de uma pesquisa nos Estados Unidos para descobrir porquê as pessoas estão abandonando as igrejas. Esse estudo revela certas tendências que poderão nos auxiliar em relação às causas, como também em como recuperar as pessoas, na tentativa de reintegrá-las. Para efeito de citação dessa pesquisa, passamos a denominá-la de LR (LifeWay Resarch).

 

A segunda trata-se de uma pesquisa que foi fruto de um projeto de pesquisa realizado em uma das disciplinas de Pós-Graduação da Faculdade Teológica Sul Americana. As pessoas foram escolhidas criteriosamente, levando em conta que deveriam estar fora da igreja no mínimo de dois (2) e no máximo de dez (10) anos. Exigiu-se também que as pessoas entrevistadas tivessem exercido algum tipo de liderança em sua igreja. A entrevista consistia de várias perguntas e as mesmas foram gravadas e transcritas, nos dando permissão de citá-las, desde que omitida as fontes. Para efeito de citação dessa pesquisa, passamos a denominá-la de PL (Pesquisa Londrina).

 

Dessa forma, as seis (6) causas descritas aqui, que levaram as pessoas a ficarem decepcionadas com suas igrejas, são reais e não conjecturas; são dados concretos e verdadeiros de pessoas que expressaram seus sentimentos. Não se trata de abstração. É possível que o grito dessas pessoas possa estar fazendo eco em nossas igrejas. Só quem tem sensibilidade e amor que cuida estará apto para ouvir. Ouvir não apenas com os ouvidos, mas com o coração quebrantado. Quem tem ouvimos para ouvir, ouça o que essas pessoas estão dizendo da igreja. Quem não quiser ouvir, o que segue não faz o mínimo sentido, ao contrário, causará desconforto.

 

1. Mudanças de situação de vida

De acordo com a pesquisa (LR), 59% das pessoas que deixaram a igreja o fizeram por causa das mudanças de situação de vida. Essa causa pode ou não estar relacionada à igreja. Elas surgem na vida das pessoas, fazendo com que deixem a igreja. São pessoas que mudam de cidade, são transferidas em seus trabalhos, e coisas do tipo. Porém, existem outros motivos relacionados às mudanças de situação de vida que podem sim fazer com que as pessoas deixem a igreja por descuido. Alguns exemplos: divórcio, separação, nascimento de um filho(a), morte na família, tipo de disciplina eclesiástica aplicada em decorrência de alguma situação experimentada, uma frustração de relacionamento com algum(s) membro(s) da igreja, a má conduta de certas pessoas ou líderes, e coisas do tipo. Se essas coisas acontecem e as pessoas acabam deixando a igreja revela que houve sim um descuido para com a porta do fundo. Esse descuido pode acontecer de forma intencional (sabe a causa, mas ignora-se), como também de forma não-intencional (a pessoa sai sem que se perceba). Seja qual for o motivo, revela uma igreja que ruma para a des-personificação.

 

A pesquisa (LR) revela que 19% das pessoas simplesmente estão muito ocupadas para participar da igreja e que 17% disseram que as responsabilidades da casa e família influenciam no processo de abandono da igreja. Em ambos os casos, parece que a igreja não tem força suficiente para que essas pessoas fiquem encorajadas, mesmo diante das situações enfrentadas, a continuarem firmes na mesma. A vida, com suas situações inevitáveis, se traduz mais como uma ameaça do que uma oportunidade. Se a ameaça prevalece, então o abandono surge como resposta. A igreja tem respondido às pressões e ameaças do mundo atual ou tem sido mais um fator de stress ou simplesmente nula?

 

Uma outra mudança de situação de vida é quando a pessoa muda de bairro. Cerca de 28% dessas pessoas reportaram que o fato de terem mudado de localidade causou o abandono de sua igreja. Isso demonstra a grande necessidade que a igreja e liderança precisam ter em relação às mudanças de vida das pessoas. Quando uma pessoa ou família move-se para uma nova localidade ou passa a freqüentar outra igreja, resta saber se a igreja notou isso.

 

2. Desencantamento dos membros e pastores

Esse motivo é indicado nessa pesquisa (LR) por cerca de 37% dos entrevistados. O comportamento dos próprios membros é responsável por 17%, registrando o lado hipócrita dos mesmos. Outros 12% revelam seu desencantamento porque encontram dificuldades de envolvimento.

 

Sem dúvida que o fator primordial aqui se refere ao pastor. Muitos o percebem como aquele que julga, não-sincero e fraco nas habilidades, como exemplo, na pregação.

 

A liderança pastoral foi a causa número um (1) que praticamente perpassou a todos entrevistados (PL). Uma das pessoas disse que “o problema principal é não viver aquilo que se é pregado... arrumar um jeitinho, uma desculpa para contornar uma certa situação e acabar deixando de fazer aquilo que é para ser feito”. Esse(a) entrevistado(a) revela sua desilusão em relação a integridade pastoral – ou seja – não viver o que prega  e não fazer o que é certo. Não há dúvida que os pastores estão constantemente nos olhares da comunidade.

 

Outra pessoa revela uma mágoa profunda em relação ao pastor. Ele relata uma circunstância e seu comentário final é esse: “eu tenho mágoa do pastor e não vou suportar aquele cara, eu não aceito a atitude que ele fez”. Essa pessoa não só demonstra sua mágoa como também sua desilusão pastoral, ao tratá-lo de cara. Esse deixou de ser pastor para ser um cara qualquer. Isso fica claro no final da entrevista, ao dizer que ele é “um grande cara, mas como pastor para mim não serve” (PL). De acordo com o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, a palavra cara, quando usada como substantivo masculino

tem a idéia de indivíduo qualquer, sujeito ou pessoa. Passou de pastor para cara.

 

“Hoje em dia os pastores estão tão ocupados com outras coisas que acabam esquecendo-se dos próprios membros dentro da igreja. Às vezes está preocupado com estudos... com uma leitura... acaba esquecendo que lá dentro da igreja dele há pessoas que devem estar se afastando porque o pastor não está visitando, não está apoiando, não está indo na casa dela... não vai conhecer a casa dela... pra saber não só como aquele irmão vive dentro da igreja, mas fora da igreja, quais as dificuldades que tem financeiramente, o que ele tem e o que ele não tem na casa dele, o que faz falta para ele”. Esse foi o comentário desse entrevistado (PL), demonstrando sua insatisfação em relação ao pastor. Para essa pessoa, esse pastor está mais preocupado com ele mesmo do que com os membros da sua igreja. Por detrás dos comentários dessa pessoa, ouve-se um grito de necessidade da proximidade pastoral. Seu desejo é que seu pastor fosse mais humano, conhecedor da sua realidade. Seu comentário final na entrevista foi: “há muitos membros de igreja hoje que não freqüentam porque falta esse relacionamento pastor-membro, membro-membro. Há muitas pessoas afastadas por esse motivo e quando se afasta, ninguém vai atrás”. Isso revela o desejo e a necessidade que as pessoas têm de serem cuidadas. Por mais que a sociedade pregue o individualismo, o ser humano é carente de cuidado e de relacionamentos.

 

3. Igreja como mercado e consumo

“A igreja hoje é um comércio”, disse um dos entrevistados (PL). Outro afirma, “as pessoas são muito descartáveis e além das pessoas serem muito descartáveis, vale mais o que elas têm para oferecer do que elas realmente são”. Note a indignação dessa pessoa sobre sua ex-igreja, ao responder a pergunta: “Quais os problemas mais graves que você tem visto na igreja ultimamente?” Ela assim diz: “Você vai lá [na igreja] para conseguir o que você quer. Eles fazem muito marketing. Acho que a igreja hoje virou marketing puro. Não tem outra coisa que define a igreja para mim a não ser marketing”. Ao ler essas frases você pode pensar que essas pessoas freqüentaram uma igreja neo-pentecostal. Atenção: todos os pesquisados foram membros de igrejas históricas. Foram igrejas que possivelmente em sua caminhada passaram a ter diferentes posturas diante das exigências mercadológicas, quem sabe usando a lógica do mercado e consumo. Certamente o consumo é ilusório e acaba cansando as pessoas. Os produtos são descartáveis. As promoções são intermináveis. A lógica da igreja é outra. Essas pessoas estão sendo ensinadas a serem servidas nas prateleiras da fé. Nossa identidade passa essencialmente pelo serviço ao outro. Cansada dessa lógica, essa pessoa disse: “vem [à igreja] e consiga isso, e consiga aquilo. Você terá isso e terá aquilo. A igreja não é desse jeito”.

 

Com muita propriedade, Wander de Lara Proença, um pesquisador sobre essas tendências do campo religioso brasileiro, afirma que:

 

Vivemos numa sociedade capitalista em que, sob muitos aspectos, cifras são vistas como sinônimo de sucesso. Assim, algumas práticas evangélicas atuais se expõem ao risco de se tornarem tão-somente uma oferta de produtos religiosos no já competitivo mercado de bens simbólicos submetidos à lógica do crescimento numérico de suas igrejas, ainda que para isso tenham de baratear a mensagem do evangelho ou, fazendo uma paráfrase bíblica, trocar o 'direito de primogenitura' por 'pratos de lentilhas' (...) Tem-se pregado um evangelho sem cruz, que não requer renúncia ao pecado e nem exige compromisso (Gn 25:33-34) (2004, p. 49).

 

Ao agir assim muitas igrejas oferecem justamente o que as pessoas buscam: soluções imediatas. Mas isso tem um preço, como o mercado também tem. Ao passarem por esse processo a conclusão óbvia que muitas pessoas chegam é que estavam sendo usadas e depois descartadas. Não é exatamente isso que acontece com muitos produtos do mercado de consumo? São colocados nas prateleiras e vitrines e depois de um tempo, o modismo passa, e o produto é descartado. Esses sentimentos de serem usadas e serem descartáveis surgirão. “Às vezes o interesse da igreja vem em primeiro lugar”, relata uma pessoa (PL). Não só o interesse da igreja às vezes em primeiro lugar, como também o interesse pastoral. Santos e Andrade afirmam:

 

Ele [pastor] é capaz de fazer tudo de acordo com os modelos que lhe são colocados. No entanto, corre o risco de perder a sua própria humanidade, e sua vocação de ser gente. Além do mais, sua prática aproxima-se de uma ação desumanizadora para ele mesmo e para as ovelhas de quem deveria cuidar. Tão somente cuidar! Ao invés de ovelhas a serem cuidadas, as pessoas tornam-se consumidoras de seu próprio produto religioso revestido de força carismática. Nesse ponto, as ovelhas tornam-se agente passivos de “seu” ministério, prontas e dispostas a colaborarem com “seu” percurso profissional-ministerial. O papel das ovelhas é o de serem coadjuvantes do ator principal do cenário eclesiástico, por meio de quem e para quem devem convergir todas as coisas (2006, p. 107).

 

“Como membro que estava na organização da igreja eu me sentia usada. E foi nessa hora que eu sai... Quando eu vi que eu seria usada por esse sistema, eu procurei sair. E isso me levou a um choque grande, uma tristeza profunda, enfim...” (PL).

 

Quando se chega a conclusão por parte dos membros que “a igreja hoje é um comércio” e que “as pessoas são muito descartáveis”, a decepção é inevitável e acabam se perdendo.

 

4. A drácma se perde dentro da própria casa

Quando se fala de pessoas decepcionadas, desiludidas, desapontadas e desencantadas pode se ter a tendência de pensar nas causas externas que provocam tais sentimentos. Certamente isso é parte da verdade. A outra parte da verdade é a que se refere às causas internas, produzidas dentro da própria igreja, provocando o abandono das pessoas. A igreja está perdendo para ela mesma!

Na parábola da Drácma Perdida Jesus nos ensina que a mulher perdeu sua drácma dentro de casa:

Ou qual é a mulher que, tendo dez drácmas e perdendo uma drácma, não acende a candeia, e não varre a casa, buscando com diligência até encontrá-la? E achando-a, reúne as amigas e vizinhas, dizendo: Alegrai-vos comigo, porque achei a drácma que eu havia perdido (Lc 15-9-8).

Uma igreja e pastorado que expressa cuidado fará como a mulher fez: varre a casa, e busca com diligência até encontrá-la. Ela varre sua própria casa; ela busca dentro de sua própria casa. Estava perdida dentro de casa. Mesmo sendo de forma metafórica, ilustra bem o fato de que também estamos perdendo nossas drácmas dentro da própria igreja. Normalmente esse processo de se perder dentro da própria casa não é do dia para a noite; é por vezes lento, mas contínuo. Na pesquisa (PL) havia a seguinte pergunta: “Que fatores foram determinantes na sua decisão de deixar a igreja? Fatores externos contribuíram no processo do seu afastamento da igreja?” Uma pessoa respondeu assim: “Não foi nada de fora que me buscou para fora. Mas o que foi de dentro que me puxou para fora”. Outra pessoa disse: “fui devagar... eu sai muito devagarzinho... foi bem devagar mesmo”. Nesse mesmo ritmo de saída, devagar, outra pessoa afirma: “Eu não deixei a igreja da noite para o dia. Foi gradualmente. Foi um processo demorado e muito doloroso”. E outra confirma: “eu fui parando aos poucos”.

 

O medo de tratar as coisas, de honestamente saber o que as pessoas estão pensando e sentindo, de se humilhar, de querer varrer a casa, faz com que não exista na comunidade ambientes que possam proporcionar diálogo, reflexões, autocrítica. As pessoas acabam ficando no seu próprio mundo e ao poucos, “devagarzinho”, como disse alguém, a drácma se perde. Um pastorado que não aceita críticas está à beira do precipício. Se as pessoas não tiverem um foro dentro da igreja para tratar das questões, certamente elas o encontrarão fora da igreja. “Fui me afastando e quando foi dada conta, já estava fora”, conclui essa pessoa.

 

A conversão não seguida de um discipulado que leva o membro à maturidade cristã propicia a evasão do membro da igreja. Ouçamos Campos, um missiólogo peruano:

 

Abundam os cristãos que pertencem a uma estrutura eclesial, “em plena comunhão”, porém que carece da identidade integral do discipulado cristológico. Eles vivem uma religiosidade que consiste em assistir aos cultos, cantar louvores, dançar ou remexer, bater palmas, ler as Escrituras, orar, ofertar, dizimar, confraternizar com os irmãos e regressar a casa. Todos se sentiram “nascidos de novo”! E muitos deles, carismáticos no espírito, não demonstram por seus frutos haver respondido ao discipulado integral e cristológico (2001, p. 53).

 

A maioria dos pastores afirma não ter tempo para o discipulado. As muitas atividades pastorais, especialmente administrativas e burocráticas, acabam deslocando uns dos principais eixos da ação pastoral: o discipulado.

 

A verdade que precisamos afirmar é que o ministério do discipulado é uma das tarefas mais difíceis dentre as muitas atividades pastorais. Talvez a razão principal dessa dificuldade seja que esse ministério toma muito tempo e energia do pastor (Barro, 2006, p. 107).

 

Jesus devotou tempo aos seus discípulos. Lucas registra na Narrativa da Viagem (de 9:51 a 19:27), o maior bloco textual, como Jesus discipulou seus seguidores. Foi certamente um discipulado missionário.

 

5. Manipulação, abuso de poder e institucionalização

John Stott faz uma afirmação muito forte acerca do mau uso do poder na liderança pastoral. Diz ele:

 

Estou firmemente convicto que existe muita autocracia nos líderes da comunidade cristã, em oposição ao ensino de Jesus, em vez de amor e bondade. Muitos se comportam como se acreditassem, não no sacerdócio de todos os crentes, mas no papado de todos os pastores. Nosso modelo de liderança é freqüentemente modelado mais pela cultura do que por Cristo (2007).

 

A palavra autocracia (gr autokráteia) significa:

 

1. Governo exercido por um só, com poderes absolutos e ilimitados. 2. Dominação política discricionária, exercida por uma pessoa ou um pequeno grupo de pessoas; pode assumir as formas de despotismo, tirania, ditadura e oligarquia, autarquia (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa).

 

Infelizmente é necessário concordar com John Stott. “Nosso modelo de liderança é freqüentemente modelado mais pela cultura do que por Cristo”. Júlio Zabatiero, em seu artigo, “Até quando Senhor? Aspectos da cultura brasileira que influenciam a atividade pastoral”, relata um tipo de personalidade marcado na cultura brasileira que, de certa forma, modelou os pastores: o coronelismo. Para ele,

 

O “coronel” é a imagem típica do senhor autoritário. Dono de grande latifúndio, geralmente às custas de vários enterrros, o coronel manda e desmanda em suas terras, sua gente, seus capangas. O “coroné” é uma figura em extinção, mas não o coronelismo. O autoritarismo, representado pelo coronel, é característica onipresente da cultura brasileira (1984: p. 2).

 

Esse modelo cultural, travestido de uma autoridade espiritual que não se pode questionar, se traduz em abuso de poder. Poder aqui é para mandar e dominar. Não é poder para servir. Esses são os autocratas da fé, os donos do rebanho. Zabatiero ainda afirma que:

 

Há muitos coronéis no pastorado. Quer seu autoritarismo seja consente ou inconsciente, o fato é que eles abundam pelas igrejas. Em sua metodologia de trabalho eles tentam controlar tudo que se passa na igreja. Querem saber de tudo o que acontece, quem faz o quê, quem não faz nada, quais crianças fazem bagunça, quem está contra ele, etc (1984: p. 2).

 

Uma liderança assim esmaga as pessoas. Esses certamente confundem autoridade com poder. Autoridade se estabelece na base da conquista e confiança; poder na base da força. Muito da decepção nas igrejas está ao redor desse estilo de líderes. “Eu acredito que como pessoa eu fui manipulada, fui usada”, relata um entrevistado (PL). Outra diz que o estilo do seu pastor de liderar era “reprimindo e manipulando”. Segunda essa pessoa, “criando um monte de robozinho igual, pensando igual, querendo igual. Para mim, isso eu acho errado”. O líder autoritário acha que tudo pode e que as pessoas irão se subordinar sem nada fazer. Engano! Não foi o caso dessa pessoa:

 

A minha saída da igreja se deu a partir do momento que percebi que quem manda é uma determinada pessoa. Tudo acontece conforme a vontade dele. Eu respeito, mas não sou condizente com o que ele pensa. Esse foi um conflito muito grande. E eu só vi uma saída. O que mais eu poderia dizer? É uma questão de manipulação. Quando o poder se concentra na mão de dois, três, quatro homens, eles começam a ser ditadores (PL).

 

Uma liderança pastoral autocrática, “do sacerdócio do papado de todos os pastores” (Stott), certamente será seduzida pelo poder institucional, passando por cima das pessoas, manipulando e usando-as. Nesse sentido a pessoa passa a ser um instrumento para se obter sucesso. Barreto diz,

 

O principal objetivo da ação pastoral é a redenção humana em sua totalidade... não se pode colocar, como muitos se tem feito, a instituição, estruturas e leis acima das pessoa humana. Jesus, constantemente, condenou os publicanos e fariseus por colocarem a Lei e as tradições acima da pessoa humana (1999, p. 56-57).

 

Santos e Andrade, refletindo sobre o poder da instituição, de maneira clara e objetiva, afirmam que:

 

A prática pastoral, por sua vez, foi formatada de acordo com essas mudanças que centralizam na instituição o poder de determinação do vir a ser das comunidades. Ela tende a reproduzir o modelo institucionalizado e conformador de padrões. A pessoa do pastor passou a ser vigiada pela instituição que procurava cadê vez mais aprimorar os mecanismos de controle sobre o indivíduo. O líder passou a submeter-se ao tipo de controle muitas vezes arbitrário do órgão a que estava ligado ou aderir ao jogo de poder que a intuição lhe propõe, tornando-se um elemento orgânico na engrenagem institucional. E, como tal, reproduzir a visão hierarquizada da relação pastor-ovelha (2006, p. 59).

 

6. Membros invisíveis

O desprezo dói muito. “A única expectativa que eu tinha era no mínimo que o pastor da igreja viesse falar comigo, coisa que nunca aconteceu”, relata essa pessoa (PL). Quem já experimentou o desprezo sabe que é pior do que uma agressão externa. A dor interior é muito profunda, pois ser desprezado pode implicar também em ser ignorado. Essas pessoas existem, mas se tornam invisíveis. Na pesquisa (LR) revelou que 16% das pessoas que deixaram a igreja disseram que ninguém entrou em contato com elas depois que saíram e outras 16% relataram que ninguém parecia se importar com o fato de terem saído.

 

A porta dos fundos representa um grande desafio para a igreja. Uma grande porcentagem das igrejas possui um comitê de recepção dos visitantes. Raras são as igrejas que possuem um comitê de integração (medida preventiva de saída) e re-integração dos membros. Normalmente essa invisibilidade está em torno dos relacionamentos. Isso é expresso no sentimento desse entrevistado: “... eles [pastores] deveriam repensar a maneira como eles estão vivendo e como a sua igreja está vivendo, de como seus membros estão se relacionando... há muitos membros de igrejas hoje que não freqüentam porque falta esse relacionamento pastor-membro, membro-membro. Há muitas pessoas afastadas por esse motivo e quando se afasta ninguém vai atrás”, conclui (PL).

 

É necessário ouvir as palavras de Lesslie Newbigin, ao comentar João 10, sobre o Bom Pastor, quando Ele chama as suas ovelhas pelo nome:

 

Ele chama as suas próprias ovelhas pelo nome. Eu esqueço os nomes das pessoas, e eu sei o que esse esquecimento realmente significa. Significa que no fundo do meu coração eu estou mais interessado nos programas que estou tentando fazer as pessoas se envolverem mais do que com as próprias pessoas. Quando você chama uma pessoa pelo nome, isso significa que você se preocupa com a pessoa como uma pessoa. E nada, além disso, é uma verdadeira reflexão do modo como Deus olha seu povo (1997, p. 14).

 

Umas da perguntas da pesquisa (PL) foi: “Em relação a sua saída, que expectativas você aguardou da igreja?” Uma pessoa menciona que quando existe uma ovelhinha que precisa de cuidado, é necessário deixar as outras (noventa e nove) para cuidar dela. Contudo, em relação a sua igreja, sua expectativa quando se afastou, essa pessoa diz: “... nunca esperei isso da minha igreja porque eu a conhecia. Não, não, em nenhuma hipótese”. Essa pessoa já sabia de antemão qual iria ser a postura da igreja em relação a sua saída. Seria pelo fato de esse ser o padrão estabelecido em relação às outras pessoas que também já tinham saído? Ao responder essa mesma pergunta, um outro entrevistado disse assim: “Nenhuma, nenhuma, eu os conhecia muito bem para esperar alguma coisa deles. O que eu esperava foi o que aconteceu, falatórios”.

 

Parece que a pior desgraça é deixar as pessoas no esquecimento, fingir que elas não existem, torná-las invisíveis.

 

Conclusão

A última pergunta feita aos entrevistados (PL) estava relacionada com um possível retorno dessas pessoas para a igreja. “O que precisaria acontecer para você voltar ao convívio de sua igreja?” Veja algumas das respostas: “Da igreja que eu fui? Isso eu acho que seria impossível. Eu não quero. Eu não sinto necessidade... Não tenho interesse que as coisas voltem do jeito que era antes. Aquela lá, não mais”. Uma outra pessoa disse: “Não tenho vontade de retornar à igreja nem de fazer parte de qualquer igreja”. Na mesma tônica, encontramos outra pessoa afirmando que “eu não sinto vontade nenhuma... hoje estou muito bem, voltar eu não volto mais... não é uma coisa que me agrada”. Finalmente, essa pessoa diz que o que precisa acontecer para ela voltar é, em suas palavras, “eu querer”. Mas ela quer? Conclui então, “ai não vai ser na igreja que eu estava”.

 

É muito triste entrevistar pessoas que participaram ativamente nas igrejas, professaram sua fé em Cristo, exerceram cargos de liderança, e que hoje estão fora não só da igreja que freqüentavam, como fora totalmente de qualquer outra. É duro ouvir frases como essas (extraídas dos entrevistados da PL):

 

“Não tenho vontade de retornar à igreja nem de fazer parte de qualquer igreja”

“A igreja não me faz falta nenhum um pouco à minha fé”

“Preferi me afastar”

“Como pastor para mim não serve”

“Eu me senti usada”

“Quando se afasta ninguém vai atrás”

“Eu hoje estou muito bem. Voltar eu não volto mais”.

 

Quais pistas poderíamos destacar nessa reflexão para que se pudesse olhar com mais cuidado a questão dos decepcionados com a igreja?

 

1.    A fragmentação do campo religioso corrói a noção e conceito de lealdade institucional e denominacional.

2.    A cidade, com seu estilo de vida urbano, e especialmente a sociedade secularizada, influencia na evasão do membro da igreja.

3.    A perda da legitimidade das denominações, instituições e da própria liderança pastoral contribuem para a evasão dos membros.

4.    A conversão não seguida de um discipulado que leve o membro à maturidade cristã propicia a evasão do membro da igreja.

5.    A institucionalização despersonalizou o ser humano na medida em que os cânones e regras foram mais enfatizados em detrimento dos relacionamentos interpessoais. O membro é visto mais como número, especialmente por aqueles que têm no crescimento da igreja sua obsessão, e não como uma pessoa que tem nome e identidade própria.

6.    A disciplina exercida pela igreja quase sempre conduz o membro para fora, em vez de restaurá-lo.

 

Definitivamente deveríamos nos preocupar mais com o tema dos decepcionados com a igreja, pois muito provavelmente essa é a maior igreja em quase todas as cidades brasileiras. É a igreja dos que estão fora da igreja. Constituída de pessoas que, passo-a-passo se aproximaram da porta dos fundos. Ficaram circulando por ali, e sem serem notadas, passaram pela porta, atravessaram a rua, dobraram a esquina e sumiram.

 

É necessário também reconhecer que para o ser humano, seja ele religioso ou a-religioso, se decepciona muito facilmente. Não é necessário nenhum grande esforço para que as pessoas fiquem decepcionadas. O melindre infelizmente faz parte da vida. Basta uma palavra infeliz, um comentário fora de tempo, uma visita não feita, uma data esquecida e coisas do tipo, o ser humano já fica decepcionado e, a partir de sua decepção, acaba generalizando a sua experiência afirmando que toda igreja é assim, que todo pastor é assim, que todos os evangélicos são assim. De fato, muitos decepcionados procuram se esconder atrás de alguém, expiando nessas pessoas as suas mazelas. Isso merece uma pesquisa de campo também.

 

Essa reflexão nos desafia a olharmos mais cuidadosamente a porta dos fundos da igreja. Cuidar é amar. O amor gera atitude. Os líderes da igreja são chamados para cuidar do “rebanho sobre o qual o Espírito Santo os colocou como bispos, para pastorearem a igreja de Deus, que ele comprou com o seu próprio sangue” (At 20:28). Cuidar é fechar a porta dos fundos! Caso contrário, o número dos filhos pródigos da igreja irá aumentar mais e mais.

 

 

Bibliografia

BARRETO, Jonas Mendes. A revitalização da igreja. Belo Horizonte: Ephata, 1999.

BARRO, Antonio Carlos. "O papel do pastor na transformação da sociedade”. In: BARRO, Antonio Carlos e Manfred Waldemar KOHL (Orgs.). Ministério pastoral transformador. Londrina: Editora Descoberta, 2006.

CAMPOS, Juan Yalico. El discipulado integral desde uma perspectiva cristológica y missionera. Lima: Ediciones Beit Shalom, 2001.

HARRE, Allan F. Feche a porta dos fundos. Editora Concórdia, 2001.

NEWBIGIN, Lesslie. The Good Shepherd: Meditations on Christian ministry in today’s world. Illinois: Willian B. Eerdmans Publishing Company, 1977.

PROENÇA, Wander de Lara. "Pérgamo: uma igreja sem o propósito da maturidade na Palavra". In: BARRO, Jorge Henrique (Org.). Uma igreja sem propósitos. Os pecados da igreja que resistiram ao tempo.  São Paulo: Mundo Cristão, 2004.

STOTT, John. Extraído de <http://lci.typepad.com/leaders_resourcing_leader/2007/08/john-stott-on-m.html>. Acessado em 09/07/2007, 14h30.

SANTOS, Lyndon de Araújo e Alek Sandro Silva de ANDRADWE. "O cuidador e o fenômeno: perspectivas da prática pastoral hoje”. In: BARRO, Antonio Carlos e Manfred Waldemar KOHL (Orgs.). Ministério pastoral transformador. Londrina: Editora Descoberta, 2006.

ZABATIERO, Júlio Paulo Tavares. “Até quando Senhor? Aspectos da cultura brasileira que influenciam a atividade pastoral”. Boletim Teológico nº 03. São Paulo: Sociedade dos Estudantes de Teologia Evangélica, 1984.

 

 

Esse artigo é de autoria de Jorge Henrique Barro. Você tem permissão para usar, desde que citada a fonte.

Ver a cidade com os olhos de Deus é o desafio desta reflexão. Ver a cidade com os nossos olhos o resultado será o caos. A maioria de nós conseguiria ver muito mais o negativo, o feio, o cruel, a dor, a injustiça, a opressão, o medo e coisas semelhantes. Ver a cidade apenas com olhos humanos é frustrante e desesperançoso. Precisamos ver com os olhos da fé, da esperança e do amor, e isto se é possível em Deus.

 

1. “Do Jardim do Éden à Nova Jerusalém”: A Cidade na Bíblia

 

Existem duas imagens muito claras na Bíblia a respeito da geografia da humanidade: o Jardim do Éden e a Nova Jerusalém. O jardim é prefigurado como a harmonia de Deus e a nova Jerusalém como a cidade redimida caracteriza pela diversidade na unidade. Diversidade porque será uma “grande multidão que ninguém podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas...” É essa riqueza multi-étnica, multi-cutural, multi-linguística que se juntam para celebrar o Cordeiro. Unidade porque estas nações, tribos, povos e línguas agora estarão “em pé diante do Cordeiro, vestidos de vestiduras brancas, com palmas nas mãos e clamavam em grande voz, dizendo: Ao nosso Deus, que se assenta no trono, e ao Cordeiro, pertence a salvação” (Ap 7:9-10). O Cordeiro, que redimiu e salvou estas nações, tribos, povos é o elo de ligação e todos clamam: ao Cordeiro pertence a salvação. Esta é a beleza e a riqueza de uma cidade marcada pela diversidade (símbolo da criatividade e respeito de Deus para todas as culturas) que unifica em Cristo, o Cordeiro. Assim passa a se desenvolver a dramática história da humanidade. A humanidade agora, inclusive nós, vive no período pós – pré: pós-jardim e pré-nova Jerusalém. È nesse período que somos chamados a viver: na lembrança do que era e na esperança do que virá. Entre o trauma do pecado  esperança da redenção. Entre o já e ainda não. É nesse período somos convocados a viver e desenvolver nossa missão. A Bíblia passa a revelar a história de um povo peregrino, que anda de cidade em cidade, em busca da terra prometida. Passa a ser, portanto, a história da redenção e da salvação da humanidade, que é acima de tudo a história do amor de Deus que busca a redimir seu povo dos seus pecados.

 

Nossa história se dá neste período do jardim à cidade santa. Não podemos nos esquecer de nenhum deles. O jardim nos lembra (1) qual era o propósito de Deus para humanidade e também (2) qual foi a decisão/resposta do ser humano para com esse propósito. Esquecer do jardim é se esquecer de onde viemos. Não podemos lembrar do Jardim como apenas a geografia da tentação e do pecado. Minha percepção é que nos lembramos muito mais do pecado e da serpente (tentador) do que o próprio Deus. Isso demonstra a tendência que temos para lembrar mais das coisas ruins e negativas. Precisamos e devemos lembrar que “Deus andava no jardim pela viração do dia” (Gn 3:8). Deus não somente andava no jardim, mas falava. O jardim é uma demonstração clara de que Deus é o Deus-da-relação. Diante da decisão errada do ser humano, sua fala foi e continua sendo a fala que busca a relação com sua criatura: onde estás? (Gn 3:9). Até o dia em que estaremos na nova Jerusalém, continuará ecoando nos quatro cantos da terra a mesma voz: onde estás? Onde estás revela o caráter e o clamor amoroso de Deus, como também revela o nosso caráter e a nossa disposição para o pecado. E foi por causa desta disposição para o pecado que Deus “lançou fora do Jardim do Éden, a fim de lavrar a terra de que fora tomado” (Gn 3:23).

 

Também não podemos viver no aqui e agora sem a visão do celeste. O protestantismo acertou em nos ensinar que não somos deste mundo, que o nosso lar é lá no céu. Mas errou em não enfatizar que devemos viver no já com o paradigma do ainda não. O celeste porvir, a cidade celestial, deve nos impulsionar a viver e desenvolver nossa missão na cidade terrestre. Sem essa utopia e esperança não tem sentido viver neste mundo. Não somos chamados para viver separado deste mundo, mas como separados de Deus para o mundo. Se no jardim o ser humano foi expulso (Gn 3:24), na nova Jerusalém, informados por João, somos recebidos por Jesus, pois “pelo sangue, nos libertou dos nossos pecados” (Ap 1:5). Quando expulsos andamos como errantes e sem-teto nos assentos da vida. Agora, redimidos pelo sangue do Cordeiro, entramos nas moradas/habitações preparadas por ele mesmo.

 

Eis o trama da história da humanidade: da expulsão ao acolhimento, da condenação a redenção, dos guardas querubins e espadas cortantes (Gn 3:24) ao Cordeiro de Deus, da servidão à adoração. A pergunta continua sendo a mesma: onde estás? Da expulsão do Jardim do Éden às portas da Nova Jerusalém continua ecoando esse onde estás. Eis, portanto, a nossa missão, que na verdade é a missão de Deus, que é a de ajudar as pessoas a responderem a pergunta mesma onde estás? Deus, por meio de nós e sua igreja, continua perguntando aos expulsos do jardim: onde estas? Ele pergunta porque seu desejo é que “milhões de milhões e milhares de milhares” (Ap 5:11) possam proclamar em alta voz: “Digno é o Cordeiro que foi morto de receber o poder, e riqueza e sabedoria, e força e honra, e glória, e louvor” (Ap 5:12).

 

Vimos que “a Bíblia começa com um jardim perfeito e termina com uma cidade perfeita” (LIM 1988:38).

 

2. “Depois do Jardim do Éden e antes da Nova Jerusalém”: A Velha Cidade (Jerusalém)

 

Logo após a expulsão do jardim do Éden o ser humano agora precisa re-começar sua vida. No Jardim ele possuía alimentos, frutas, sombra e água fresca. Agora, sem teto, “em fadigas obterá dela [terra] o sustento durante os dias da tua vida. Ela produzirá cardos e abrolhos, e tu comerás a erva do campo. No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que tornes a terra, pois dela foste formado; porque tu és pó e ao pó tornarás” (Gn 3:17-19). Agora, o ser humano tem que “lavrar a terra de que fora tomado” (Gn 3:23).

 

É agora, depois do Jardim do Éden e antes da nova Jerusalém, que o trama da história humana se desenvolve. Pão, sombra e água fresca passam a ser a busca desesperada do ser humano até os dias de hoje. Pão como símbolo do alimento diário. Sombra como símbolo de teto, casa e lar. Água fresca como símbolo das coisas que saciam a sede do ser humano. Nessa busca encontramos uma história de beleza e maldade cujo ator principal é o próprio ser humano. Para conseguir essas coisas ele é capaz de tudo: de amar e odiar, de cantar e amaldiçoar, de tocar e matar, de construir e destruir. E as cidades passam a fazer parte integrante nesta história. Eis a cidade de Babel e sua torre.

 

A cidade de Babel é, ao meu ver, um símbolo negativo da relação entre o ser humano e Deus. Babel é justamente o contrário daquilo que Deus intencionava para a cidade. Babel é a cidade-mãe da secularização. Sua proposta era viver uma vida onde o centro de todas as coisas não era Deus, mas eles mesmos, querendo tornar seus nomes célebres (Gn 11:4). Eles no centro e Deus na periferia. Um culto à eles mesmos.

 

Disseram: Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo tope chegue até aos céus e tornemos célebre nosso nome, para que não sejamos espalhados por toda terra. Então desceu Deus para ver a cidade e a torre, que os filhos dos homens edificaram; e o Senhor disse: Eis que o povo é um, e todos têm a mesma linguagem. Isto é apenas o começo, agora não haverá restrição para tudo o que intentarem fazer. Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem, para que um não entenda a linguagem do outro. Destarte, o Senhor os dispersou dali para a superfície da terra; e cessaram de edificar a cidade (Gn 11:4-8).

 

Deus toma essa atitude por entender que isto era apenas o começo. Ou seja, muito mais estava por vir por serem unidos e falarem a mesma língua. Deus sempre se mostrou preocupado com inclusividade e não exclusividade dos povos. Caminha assim, a cidade de Babel com sua torre era uma candidata a dominadora, egocêntrica, superioridade cultural (mesma língua). Deus percebe isso e os dispersa. A cidade que Deus deseja é inclusiva, multi-cultural, muti-linguística, multi-étnica. O único a ser adorado é ele e não a torre. Desde cedo, Deus já nos dava pistas que o evangelho iria ser pregado, proclamado e vivido num contexto multi-cultural. Que o desafio do evangelho iria ser trans-cultural, ainda que dentro de uma mesma cidade, como são as grandes cidades do mundo de hoje.Em Babel, eles estavam buscando a unidade em uniformidade – um povo vivendo juntos em uma grande cidade, tendo uma torre e uma mesma língua em comum. Porém, em nossas cidades de hoje nós celebramos a unidade em diversidade. A diversidade das línguas, das culturas, das classes sociais, das festas, etc... ou seja, um mundo multi-cultural. Se nós como igreja queremos falar relevantemente para este mundo, precisamos aprender a conviver e a cruzar essas barreiras culturais e raciais.

 

A uniformidade da cidade de Babel precisa dar lugar a rica diversidade da Nova Jerusalém. Na Revelação do Apocalipses as nações marcharão para a cidade, cada povo e cultura trará seus dons e talentos em frente de toda a humanidade. Será uma festa das nações. Nações que aparentemente foram destruídas no decorrer da história irão marchar para a Cidade de Deus, limpas e convertidas, trazendo sua glória para dentro dela. Esta é a beleza do lindo significado da descrição que temos da Cidade de Deus com doze portões cada um feito de pérolas, paredes de jaspe e com doze fundações, cada uma com pedras preciosas diferentes, e as ruas pavimentadas com ouro – que rica diversidade que se une ao redor do trono de Deus.

 

Muitas das nossas cidades de hoje ilustram a diversidade da cidade moderna. Ande pelas ruas de São Paulo e você encontrará centenas de padarias portuguesas. Entre em uma livraria e você encontrará um cristão, um espírita e um ateu procurando por algo que lhes interesse. Você pode escolher comer uma bela macarronada no Bexiga ou uma comida japonesa no bairro da liberdade. Se preferir, você pode degustar uma porção de carne seca acebolada ao som de um pagode, em algum bar da cidade. Ao andar no centro, você acabará inevitavelmente se esbarrando nas barracas dos camelôs, onde se compra quase de tudo, e ainda por quebra acaba comendo um acarajé, caso você não tenha problemas com comidas dedicadas aos santos da Bahia. Pedintes, homens de terno e gravata, as cores dos times de futebol, carros e muita gente. Um microcosmo – um mosaico – do nosso mundo atual. No final dos tempos, os tesouros das nações serão redimidos e encontrará seu lugar na Cidade de Deus, a nova Jerusalém.

 

Seria muito afirmar que a Babel se tornará a nova Jerusalém? A cidade de Satanás se torna na Cidade de Deus. O exclusivo, uniforme, pecadora cidade com sua alta torre, se transforma agora na cidade aberta, diversa, que recepciona com seus portões abertos dia e noite. E nós vivemos na cidade do meio - depois do Jardim do Éden e antes da Nova Jerusalém – que é a velha Jerusalém. O tempo na cidade ambígua, esta misturado entre o bem e o mal, certo e errado, belo e horrível, riqueza e pobreza, fraco e forte, poderoso e o sem voz. Uma cidade que nos alegra é também a cidade cheia de situações que nos causa pavores. È um lugar ambíguo. E na verdade não sabemos muito o que fazer com isto.

 

Por isso - esse sentimento de não saber o que fazer – faço três perguntas que devem nortear nossa reflexão enquanto caminhamos e vivemos nas cidades modernas:

 

- O que Deus pensa da cidade?

- Onde está Deus na cidade?

- E o que Deus quer que sua igreja seja na cidade?

 

Creio que nossas repostas à estas perguntas indicarão os caminhos para podermos ver a cidade com os olhos de Deus.

 

A. O que Deus pensa da cidade?

 

Se queremos falar sobre a visão de Deus para – como Ele vê a cidade – precisamos começar pelo centro de tudo, pelo amor de Deus pela cidade. A maioria das pessoas vê a cidade como centro da maldade, crueldade, impiedade, impunidade, criminalidade, corrupção, e coisas afins. É certo que todas estas situações, e muitas outras ainda, fazem parte até mesmo do cotidiano da cidade. Porém, não deve ser esta a nossa abordagem da cidade. A nossa abordagem deve ser o amor de Deus - porque Deus amou o mundo. Ao criar todas as coisas, viu Deus que era bom. Seu olhar foi o olhar da bondade e da beleza (Gn 1:31). Estou convencido que se existe algo que necessita ser mudado em nossa perspectiva em relação à cidade é a nossa visão, ou seja, o modo como vemos a cidade. Ouso a dizer que o modo como vemos a cidade determinará o tipo de envolvimento para com a mesma.

 

Deus não somente que ao criar viu que era bom, mas também Deus ama a cidade como se fosse sua. Em Ezequiel 16:1-14 temos uma profunda descrição do amor de Deus para com a cidade.

 

(1) Veio a mim esta palavra do SENHOR: (2) “Filho do homem, confronte Jerusalém com suas práticas detestáveis (3) e diga: Assim diz o Soberano, o SENHOR, a Jerusalém: Sua origem e seu nascimento foram na terra dos cananeus; seu pai era um amorreu e sua mãe uma hitita. (4) Seu nascimento foi assim: no dia em que você nasceu, o seu cordão umbilical não foi cortado, você não foi lavada com água para que ficasse limpa, não foi esfregada com sal nem enrolada em panos. (5) Ninguém olhou para você com piedade nem teve suficiente compaixão para fazer qualquer uma dessas coisas por você. Ao contrário, você foi jogada fora, em campo aberto, pois, no dia em que nasceu, foi desprezada.(6) “Então, passando por perto, vi você se esperneando em seu sangue e, enquanto você jazia ali em seu sangue, eu lhe disse: Viva! (7) E eu a fiz crescer como uma planta no campo. Você cresceu e se desenvolveu e se tornou a mais linda das jóias. Seus seios se formaram e seu cabelo cresceu, mas você ainda estava totalmente nua. (8) “Mais tarde, quando passei de novo por perto, olhei para você e vi que já tinha idade suficiente para amar; então estendi a minha capa sobre você e cobri a sua nudez. Fiz um juramento e estabeleci uma aliança com você, palavra do Soberano, o SENHOR, e você se tornou minha. (9) “Eu lhe dei banho com água e, ao lavá-la, limpei o seu sangue e a perfumei. (10) Pus-lhe um vestido bordado e sandálias de couro. Eu a vesti de linho fino e a cobri com roupas caras. (11) Adornei-a com jóias; pus braceletes em seus braços e uma gargantilha em torno de seu pescoço; (12) dei-lhe um pendente, pus brincos em suas orelhas e uma linda coroa em sua cabeça. (13) Assim você foi adornada com ouro e prata; suas roupas eram de linho fino, tecido caro e pano bordado. Sua comida era a melhor farinha, mel e azeite de oliva. Você se tornou muito linda e uma rainha. (14) Sua fama espalhou-se entre as nações por sua beleza, porque o esplendor que eu lhe dera tornou perfeita a sua formosura. Palavra do Soberano, o SENHOR.

 

Jerusalém é como uma criança órfã recém nascida que Deus a adota. Deus ama a cidade a ponto de declarar que ela a Ele pertence -“...e você se tornou minha” (verso 8). Creio ser muito importante afirmar que a cidade pertence a Deus – “minha é a terra”, porque existe por ai, em meio de alguns irmãos nossos, uma idéia não bíblica de que a cidade pertence a Satanás. O mundo jaz no maligno, mas jamais a Bíblia afirmou o mundo pertence ao maligno.

 

Aquele que ama e como fruto deste amor adota a cidade é também aquele que demonstra compaixão e justiça em relação à cidade. Esta é a terceira maneira como Deus vê a cidade: ele a vê por meio da compaixão e justiça. Compaixão por que tem a capacidade de chorar e derramar lágrimas por estado da cidade. Jesus ao ver Jerusalém chorou (Lc 13:34-35). Foi um choro que demonstrou o quanto ele amava aquela cidade e também em ver o estado de pecado em que ela se encontrava. Foi como o choro de uma mãe que sente a dor de uma filha que se dela se afasta (por isso a imagem da galinha/pintinhos).

 

A continuação do texto de Ezequiel 16 deixa claro essa maneira compassiva e justa do olhar de Deus para com a cidade:

 

 

(15) “Mas você confiou em sua beleza e usou sua fama para se tornar uma prostituta. Você concedeu os seus favores a todos os que passaram por perto, e a sua beleza se tornou deles.e (16) Você usou algumas de suas roupas para adornar altares idólatras, onde levou adiante a sua prostituição. Coisas assim jamais deveriam acontecer! (17) Você apanhou as jóias finas que eu lhe tinha dado, jóias feitas com meu ouro e minha prata, e fez para si mesma ídolos em forma de homem e se prostituiu com eles. (18) Você também os vestiu com suas roupas bordadas, e lhes ofereceu o meu óleo e o meu incenso. (19) E até a minha comida que lhe dei: a melhor farinha, o azeite de oliva e o mel; você lhes ofereceu tudo como incenso aromático. Foi isso que aconteceu, diz o Soberano, o SENHOR. (20) “E você ainda pegou seus filhos e filhas, que havia gerado para mim, e os sacrificou como comida para os ídolos. A sua prostituição não foi suficiente? (21) Você abateu os meus filhos e os sacrificou para os ídolos! (22) Em todas as suas práticas detestáveis, como em sua prostituição, você não se lembrou dos dias de sua infância, quando estava totalmente nua, esperneando em seu sangue. (23) “Ai! Ai de você! Palavra do Soberano, o SENHOR. Somando-se a todas as suas outras maldades, (24) em cada praça pública, você construiu para si mesma altares e santuários elevados. (25) No começo de cada rua você construiu seus santuários elevados e deturpou sua beleza, oferecendo seu corpo com promiscuidade cada vez maior a qualquer um que passasse. (26) Você se prostituiu com os egípcios, os seus vizinhos cobiçosos, e provocou a minha ira com sua promiscuidade cada vez maior. (27) Por isso estendi o meu braço contra você e reduzi o seu território; eu a entreguei à vontade das suas inimigas, as filhas dos filisteus, que ficaram chocadas com a sua conduta lasciva. (28) Você se prostituiu também com os assírios, porque era insaciável, e, mesmo depois disso, ainda não ficou satisfeita. (29) Então você aumentou a sua promiscuidade também com a Babilônia, uma terra de comerciantes, mas nem com isso ficou satisfeita. (30) “Como você tem pouca força de vontade, palavra do Soberano, o SENHOR, quando você faz todas essas coisas, agindo como uma prostituta descarada! (31) Quando construía os seus altares idólatras em cada esquina e fazia seus santuários elevados em cada praça pública, você só não foi como prostituta porque desprezou o pagamento. (32) “Você, mulher adúltera! Prefere estranhos ao seu próprio marido! (33) Toda prostituta recebe pagamento, mas você dá presentes a todos os seus amantes, subornando-os para que venham de todos os lugares receber de você os seus favores ilícitos. (34) Em sua prostituição dá-se o contrário do que acontece com outras mulheres; ninguém corre atrás de você em busca dos seus favores. Você é o oposto, pois você faz o pagamento e nada recebe. (35) “Por isso, prostituta, ouça a palavra do SENHOR! (36) Assim diz o Soberano, o SENHOR: Por você ter desperdiçado a sua riqueza e ter exposto a sua nudez em promiscuidade com os seus amantes, por causa de todos os seus ídolos detestáveis, e do sangue dos seus filhos dado a eles, (37) por esse motivo vou ajuntar todos os seus amantes, com quem você encontrou tanto prazer, tanto os que você amou como aqueles que você odiou. Eu os ajuntarei contra você de todos os lados e a deixarei nua na frente deles, e eles verão toda a sua nudez. (38) Eu a condenarei ao castigo determinado para mulheres que cometem adultério e que derramam sangue; trarei sobre você a vingança de sangue da minha ira e da indignação que o meu ciúme provoca. (39) Depois eu a entregarei nas mãos de seus amantes, e eles despedaçarão os seus outeiros e destruirão os seus santuários elevados. Eles arrancarão as suas roupas e apanharão as suas jóias finas e a deixarão nua. (40) Trarão uma multidão contra você, que a apedrejará e com suas espadas a despedaçará. (41) Eles destruirão a fogo as suas casas e lhe infligirão castigo à vista de muitas mulheres. Porei fim à sua prostituição, e você não pagará mais nada aos seus amantes. (42) Então a minha ira contra você diminuirá e a minha indignação cheia de ciúme se desviará de você; ficarei tranqüilo e já não estarei irado. (43) “Por você não se ter lembrado dos dias de sua infância, mas ter provocado a minha ira com todas essas coisas, certamente farei cair sobre a sua cabeça o que você fez. Palavra do Soberano, o SENHOR. Acaso você não acrescentou lascívia a todas as suas outras práticas repugnantes? (44) “Todos os que gostam de citar provérbios citarão este provérbio sobre você: ‘Tal mãe, tal filha’. (45) Você é uma verdadeira filha de sua mãe, que detestou o seu marido e os seus filhos; e você é uma verdadeira irmã de suas irmãs, as quais detestaram os seus maridos e os seus filhos. A mãe de vocês era uma hitita e o pai de vocês, um amorreu. (46) Sua irmã mais velha era Samaria, que vivia ao norte de você com suas filhas; e sua irmã mais nova, que vivia ao sul com suas filhas, era Sodoma. (47) Você não apenas andou nos caminhos delas e imitou suas práticas repugnantes, mas também, em todos os seus caminhos, logo se tornou mais depravada do que elas. (48) Juro pela minha vida, palavra do Soberano, o SENHOR, sua irmã Sodoma e as filhas dela jamais fizeram o que você e as suas filhas têm feito. (49) “Ora, este foi o pecado de sua irmã Sodoma: ela e suas filhas eram arrogantes, tinham fartura de comida e viviam despreocupadas; não ajudavam os pobres e os necessitados. (50) Eram altivas e cometeram práticas repugnantes diante de mim. Por isso eu me desfiz delas, conforme você viu. (51) Samaria não cometeu metade dos pecados que você cometeu. Você tem cometido mais práticas repugnantes do que elas, e tem feito suas irmãs parecerem mais justas, dadas todas as suas práticas repugnantes. (52) Agüente a sua vergonha, pois você proporcionou alguma justificativa às suas irmãs. Visto que os seus pecados são mais detestáveis que os delas, elas parecem mais justas que você. Envergonhe-se, pois, e suporte a sua humilhação, porquanto você fez as suas irmãs parecerem justas. (53) “Contudo, eu restaurarei a sorte de Sodoma e das suas filhas, e de Samaria e das suas filhas, e a sua sorte junto com elas, (54) para que você carregue a sua vergonha e seja humilhada por tudo o que você fez, o que serviu de consolo para elas. (55) E suas irmãs, Sodoma com suas filhas e Samaria com suas filhas, voltarão para o que elas eram antes; e você e suas filhas voltarão ao que eram antes. (56) Você nem mencionaria o nome de sua irmã Sodoma na época do orgulho que você sentia, (57) antes da sua impiedade ser trazida a público. Mas agora você é alvo da zombaria das filhas de Edom e de todos os vizinhos dela, e das filhas dos filisteus, de todos os que vivem ao seu redor e que a desprezam. (58) Você sofrerá as conseqüências da sua lascívia e das suas práticas repugnantes. Palavra do SENHOR. (59) “Assim diz o Soberano, o SENHOR: Eu a tratarei como merece, porque você desprezou o meu juramento ao romper a aliança. (60) Contudo, eu me lembrarei da aliança que fiz com você nos dias da sua infância, e com você estabelecerei uma aliança eterna. (61) Então você se lembrará dos seus caminhos e se envergonhará quando receber suas irmãs, a mais velha e a mais nova. Eu as darei a você como filhas, não porém com base em minha aliança com você. (62) Por isso estabelecerei a minha aliança com você, e você saberá que eu sou o SENHOR. (63) Então, quando eu fizer propiciação em seu favor por tudo o que você tem feito, você se lembrará e se envergonhará e jamais voltará a abrir a boca por causa da sua humilhação. Palavra do Soberano, o SENHOR” (Ez 16:15-63).

 

 

Estas palavras precisam ser lidas com a ótica de um traído e abandonado. Deus sofre ao ver a cidade se corrompendo e andando longe dele. Apesar de pronunciar sua compaixão e justiça, o final de tudo é este: “por isso estabelecerei a minha aliança com você, e você saberá que eu sou o SENHOR. Então, quando eu fizer propiciação em seu favor por tudo o que você tem feito...” (Ez 16:62-64).

 

Deus se regozija na cidade, querendo redimir e não esquecer sua criação. Deus deseja redimir a cidade reconstruindo a velha Jerusalém que será remodelada e reconstruída na nova Jerusalém. Essa reconstrução pode ser física, econômica, política e espiritual. Quantas instituições e movimentos não encontramos nas cidades que ao meu ver são braços de Deus visando sua restauração e redenção. As muitas creches, asilos, orfanatos, lares, distribuição de comida, casas de recuperação são expressões do amor redentivo de Deus. Do ponto de vista cultural, a restauração das praças, parques, lugares turísticos são também obras com o dedo de Deus. A igreja com a cidade será aquela que trabalha na reconstrução e redenção da mesma.

 

B. Onde está Deus na cidade?

 

Onde está Deus em tudo isso? É a pergunta que muitos fazem em meio ao caos urbano. A resposta é simples: Deus esta bem no meio de tudo isso! No meio do quebrado e contundiu, do atordoado e desorientado, do fraco e vulnerável, do moribundo e morte. Ele não está confortavelmente sentado em uma poltrona celestial, assistindo a vida humana com um controle remoto em suas mãos. Ele está aqui, no meio da vida humana. E esse é o lugar onde a igreja deve estar também. Aqueles que crêem que Deus esta longe assistindo a drama ad vida, tendem também a ter uma igreja distante, que não participa da vida cotidiana. Tendem a desenvolver uma espiritualidade de geografias, os seja, de lugares sagrados para com Ele se encontrar. Por esta razão muitas pessoas oram assim ao entrar na igreja: “Senhor, agora que entramos em tua presença...” E a pergunta que fica é esta: qual saiu? Simples: ao sair da igreja. Deus, é portanto, refém da nossa visão. Infelizmente os teólogos sistemáticos não nos ajudaram muito neste aspecto. Parece que enfatizaram muito mais o Deus absconditus do que Emanuel. Mais o Deus de olhos gigantes do que o Deus com mãos solidárias. Eu me treino constantemente para poder ver em meio a vida humana. Existe uma tragédia, minha tendência é dizer que Satanás se fez presente. Eu me re-educo para poder ver Deus bem no meio da vida. Me faço lembrar do seu Filho, que é Deus conosco, que se fez presente entre os pobres, fracos, que ia em festas, que comia com pecadores, que era solidário ao doente, que se compadecia que gente entupida de pecados. Onde esta Deus nisso tudo? Ele está aqui no meio de tudo. Ele está onde sua criação esta. Onde o necessitado e aflito estão ele também esta para socorrer. Ele esta em relação e interação. É possível ver Deus exatamente de forma contrário como aqui descrevo, mas eu me nego.

 

Jesus disse “o que vocês deixaram de fazer a alguns destes mais pequeninos, também a mim deixaram de fazê-lo” (Mt 25:45). Deixar de fazer é não ser compassivo e amoroso. Quando buscamos suprir as necessidades do próximo, ali estava Deus bem no meio de tudo através de nós. Jesus também disse na parábola do Bom Samaritano, “vá e faça o mesmo” (Lc 10:37). Nos tornamos como Cristo para o próximo quando vamos e fazemos o mesmo. Quando acudimos ao necessitado , limpamos sua ferida, e os despedimos em paz. Deus está no meio de nossos relacionamentos. Nós tornamos a presença de Deus real quando encarnamos em nossas cidades de hoje nossos atitudes de compaixão e amor.

 

No livro de Apocalipses temos uma dica de como é o plano de Deus para a cidade, que lá Deus habitará finalmente com seu povo. Na cidade não haverá templos: “não vi templo algum na cidade, pois o Senhor Deus todo-poderoso e o Cordeiro são o seu templo” (Ap 21:22). Creio que nós poderíamos acelerar esse processo. Hoje eu não posso dizer assim: não vejo nenhum templo na cidade. Nossa escassez não é de templo, mas o que fazer com eles. Para alguns, o templo é muito santo e sagrada para certas atividades. Se desde agora o Senhor Deus todo-poderoso e o Cordeiro são nossos templos, então podemos pensar melhor sobre a resposta da pergunta, onde esta Deus na cidade. Ele está onde nós estivermos. Mas se não estivermos ele deixará de estar.Certamente não! Porém, se Deus esta presente entre nós, então devemos tratar cada um, nossos visitantes e estrangeiros que encontramos em nossos caminhos com respeito, porque quem sabe se não estamos hospedamos anjos e nem sabíamos disto.

 

C. O que Deus quer que sua igreja seja na cidade?

 

A partir desta reflexão quero compartilhar finalmente como eu acho que Deus gostaria que sua comunidade fosse na cidade. Talvez isto tenha a ver muito mais com meus anseios do que com uma justa e clara visão a respeito do próprio Deus. Colocando assim, não corro o risco de colocar Deus em prejuízo. Isto é o que eu penso a respeito do que Deus pensa sobre ba ação da igreja na cidade.

 

Eu vejo que Deus deseja que sua igreja seja um centro de hospitalidade para cidade. Creio que a visão de Deus para a cidade é que sua igreja seja um lugar onde todos são bem recebidos. A qualquer momento, o estrangeiro é bem recebido entre nós. Teremos duas afirmações possíveis. Quando Jesus fizer a chamada: Mateus 25:35 – muitos dirão: presente! (“fui estrangeiro, e vocês me acolheram”). Também quando Jesus fizer a chamada: Mateus 25:43 – muitos dirão: presente! (“fui estrangeiro, e vocês não me acolheram”). A igreja deve ser um centro de hospitalidade. Um centro de hospitalidade é um lugar de boas vindas. Um lugar onde as pessoas possam se sentir em casa. Isto não é simplesmente ter uma recepção de boas vindas nas igrejas, mas ter toda a comunidade que demonstra a hospitalidade para com o estrangeiro. Um centro de hospitalidade onde o solitário encontra amizade, onde o confuso encontra entendimento.

 

Vejo também que Deus deseja que sua igreja seja um centro de refúgio onde os fora e os estrangeiros, o pobre e o fraco, o perseguido e o não-amado possam encontrar um santuário. Isto nos faz lembrar das Cidades Refúgios que Deus preparou Israel no Antigo Testamento. Talvez a palavra asilo possa ser pertinente aqui. Ela oferece asilo para pessoas que:

 

- estão passando por situações de crises

- estão pressionadas pela muitas atividades de uma vida cotidiana estressante

- estão solitárias e sem amizades sólidas

- estão confusas e não tem ninguém que as ouça

- estão famintas e sedentas para achar o verdadeiro Deus

 

Muitas vezes o fato de termos um estoque de cestas básicas em algum lugar da igreja fala mais do que até mesmo encher a barriga de alguém. Demonstra nossa preocupação de sermos asilo para o desamparado. Revela nossa intenção de ser asilo. Isto me faz lembrar de uma história de um sacerdote católico da cidade de Los Angeles, que fomos (eu e um grupo de alunos do Fuller Theological Seminary) visitar por ser sua paróquia uma comunidade urbana, em meio as gangs de Los Angeles. Ele nos contou a seguinte história.

 

Certa vez um homem que no passado havia pertencido a nossa paróquia veio nos visitar. Depois de conversarmos um pouco, ele assim me disse. “Padre, foi aqui nesta paróquia que foi batizado, onde aprendi as coisas a respeito de Deus, onde minha fé foi alimentada. Porém, hoje este lugar não mais uma igreja, pois olhe aquele mendigo sentado lá no fundo. E aquele lugar ali que costumava ser uma sala de oração virou banheiros onde os mendigos tomam banho. Antes este lugar era organizado, agora é uma baderna, um entra e sai de gente. Isto mais se parece como uma rodoviária do que com uma igreja. É, de fato, isto era uma igreja”. O padre, sabendo exatamente o que se passava no coração daquele homem, em vez de responder ou retrucar, preferiu chamar um daqueles homens que ali estavam. Ele disse: “Pedro, você poderia vir aqui um instante,, por favor”. E lá vem o Pedro, todo alegre e feliz. “Pedro”, pergunta o padre, “o que significa este lugar para você?”. Ah padre, este lugar é tudo para mim. Eu estava morrendo debaixo da ponte e quando me trouxeram para este lugar eu encontrei uma família. Este lugar é a família que eu nunca tive. O padre agradece ao Pedro e o despede. Em seguida ele chama uma moça, e faz a mesma pergunta. Ela logo diz que aquele lugar salvou a vida dela, pois estava grávida, correndo risco de vida, e ali ela havia encontrado refúgio para poder receber a criança que estava em seu ventre. O padre agradece a moça e a despede. E assim ele o fez com mais algumas pessoas. Ao final de tudo ele se vira para o Pedro e diz: “Pedro, eu sinto muito que para você este lugar era uma igreja. Mas eu não sinto nem pouco por todas estas pessoas que estão aqui, pois para elas, esta é a única igreja e família que eles possuem”. É claro que eu nem preciso dizer que ao ouvir esta história verdadeira que nós estávamos em pranto, percebendo que aquela comunidade havia se tornado um centro de hospitalidade, um centro de refúgio, uma cidade santa para aqueles que haviam, perdido as esperanças de viver.

 

Ainda vejo que Deus deseja que sua igreja seja um centro de misericórdia, esperança e vida. Igreja é betesda – uma casa de misericórdia. Se existe um lugar no mundo onde a vida deve receber o máximo valor e na igreja na vida daqueles que professam a Jesus. Nossos legalismos e tradicionalismos só existem porque a vida não é nossa prioridade. Quando a vida esta acima de tudo e ocupa a prioridade das nossas agendas, então é possível colher espigas no sábado (Lc 6:1). Então é possível curar um homem de mão atrofiada no mesmo sábado (Lc 6:6). È sábado, mas existe uma mulher que esta encurvada, com problemas na colina cerca de dezoito anos, e ela sai curada (Lc 13:11). A vida esta em primeiro lugar, mesmo o líder fique “indignado porque Jesus havia curado no sábado, o dirigente da sinagoga disse ao povo: “Há seis dias em que se deve trabalhar. Venham para ser curados nesses dias, e não no sábado” (Lc 13:14). Havia um homem cujo corpo estava to inchado (Lc 14:1-2) e Jesus faz a seguinte pergunta para os religiosos, “Se um de vocês tiver um filho ou um boi, e este cair num poço no dia de sábado, não irá tirá-lo imediatamente?” (Lc. 14:5). A resposta deles foi o silêncio: “e eles nada puderam responder” (Lc 14:6). Em vez de se posicionarem um função da vida, escolheram a covardia da tradição. É triste ter que chegar a esta conclusão por causa das tradições: “Hoje é sábado, não lhe é permitido carregar a maca” (Jo 5:10).

 

Creio que também precisamos aprender o que Jesus disse aos que refutavam sua participação com os pecadores: “vão aprender o que significa isto: ‘Desejo misericórdia, não sacrifícios’. Pois eu não vim chamar justos, mas pecadores” (Mt 9:13; 12:7). É possível fazer as coisas e até mesmo liderar a igreja de Deus sem misericórdia. Por isso Jesus disse: “Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês dão o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas têm negligenciado os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Vocês devem praticar estas coisas, sem omitir aquelas” (Mt 23:23).

 

Jesus tinha o desejo que sua casa fosse lembrada como uma casa de oração: “a minha casa será casa de oração” (Lc 19:46). Qual é lugar da oração nesta reflexão? Por meio da oração demonstramos misericórdia, esperança para pessoas e valorizamos a vida das mesmas. Ouso afirmar que a oração deveria produzir em nós um coração mais misericordioso. Uma boca que profere esperança para o outro e a vida como centro das nossas atenções. Uma casa de oração é uma casa de misericórdia. Uma casa de oração é uma casa de esperança. Uma casa de oração é uma casa de vida!

 

Finalmente, eu preciso ver que Deus deseja que sua igreja seja um centro sinalizador do Reino. Assim como o farol esta para o mar, assim também esta a igreja para a cidade. A igreja é convocada para ser “um sinal de contradição”, assim como foi Jesus. Simeão avisa e previne Maria que seu filho seria “um sinal de contradição” (Lc 2:34). Isto significa desafiar as normas e valores deste mundo, como demonstrado o sermão do monte.

 

A igreja esta na cidade e com a cidade. Está junto com muitas outras instituições, prédios, centros comerciais, entre os ricos e pobres, poderosos e sem vozes, sendo ela também um sinal de contradição – contra as coisas que são desumanas, desafiando os valores do mundo e apontam os valores do reino de Deus, sua justiça, uma igreja inclusive e aberta, unida na diversidade, uma comunidade de compaixão.

 

Conclusão

 

Começamos nossa reflexão discernindo duas localidades geográficas: o jardim do Éden e a Nova Jerusalém. Sabemos de onde viemos, o que fizemos, e para onde vamos. Viemos de um lugar projetado para ser harmônico, que foi invadido pelo pecado e vamos para a Nova Jerusalém, a santa cidade restaurada por Deus. Enquanto lá não estamos, nosso desafio é viver no já do nosso chão com os paradigmas do ainda não. Se para lá vamos, então vamos trazer o lá para o aqui. Nada de escapismos e de fuga. Sejamos crentes e oremos como Jesus nos ensinou: venha o teu reino; e seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6:10). Não nos pode passar desapercebidos esses assim na e como no. Assim como a vontade de Deus é plena no céu, da mesma forma seja ela na terra. Isto nos lembra outro assim como: “assim como o Pai me enviou, eu os envio” (Jo 20:21). Por isso, me esforcei para demonstrar que enquanto não estamos na Nova Jerusalém é o nosso dever missionário viver na Velha Jerusalém (o nosso hoje) como se estivéssemos na Nova Jerusalém. Somos como os patriarcas da fé, que “esperavam eles uma pátria melhor, isto é, a pátria celestial. Por essa razão Deus não se envergonha de ser chamado o Deus deles, e lhes preparou uma cidade” (Hb 11:6). Para isso, me esforcei em demonstrar três perspectivas:

 

- Como Deus vê a cidade? Ele vê (1) com os olhos do amor, (2) como se sendo sua, (3) com olhos compassivos e justos, e (4) com olhos que busca e redime sua criação.

 

- Onde está Deus na cidade? Bem no meio dela. Como eu afirmei anteriormente, Deus está no meio do quebrado e contundiu, do atordoado e desorientado, do fraco e vulnerável, do moribundo e morte. Ele não está confortavelmente sentado em uma poltrona celestial, assistindo a vida humana com um controle remoto em suas mãos. Ele está aqui, no meio da vida humana. E esse é o lugar onde a igreja deve estar também.

 

- E o que Deus quer que sua igreja seja na cidade? Um centro! Centro não para si mesma, mas pra o outro. Um centro de hospitalidade. Um centro de refúgio. Um centro de misercórdia-esperança-vida. Um centro sinalizador do Reino. Assim como o farol esta para o mar, assim também esta a igreja para a cidade.

 

Onde esta Deus? Ele esta aqui, no meio de nós e tudo.

 

O que é a sua igreja? Um coração que bate no coração da cidade. Se esse coração vai continuar batendo ou não depende nós. Essa foi a proposta de Jeremias (29:7) para os judeus que estavam exilados na Babilônia, sem esperança, rejeitados, sonhando um voltar aos velhos e gloriosos dias de Jerusalém e seu Templo. Jeremias fala para eles pararem de pensar no passado e começar a viver o presente, o aqui e agora, no meio de uma cultura e um povo estranho. Trabalhem (produzam) o bem onde vocês estão. Construam casas e casam-se, construam uma comunidade, compram e vendam – ou seja – vivam plenamente onde Deus os colocou. “Busquem a prosperidade da cidade para a qual eu os deportei e orem ao Senhor em favor dela, porque a prosperidade de vocês depende da prosperidade dela” (Jr 29:7).

 

Nós todos estamos nesta vida juntos. Estamos inter-conectados, inter-ligados, Igreja e Cidade. Não somos entidades separadas, costa a costa. As portas das nossas igrejas devem olhar para cidade e a cidade deve olhar para as portas das nossas igrejas. Estamos ligados juntos e juntos devemos viver. O bem-estar nosso depende também do bem-estar da cidade. Na prosperidade da cidade seremos prósperos também. Willian Temple disse que a igreja que vive para ela mesma morrerá por ela mesma.

 

Deus continua procurando sua criatura, reclamando dela uma resposta a sua pergunta: Onde estas? Esta pergunta também serve para a igreja: onde está a minha paróquia? Que nossa resposta seja a de John Wesley, “minha paróquia é o mundo”.

 

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Esse artigo é de autoria de Jorge Henrique Barro. Você tem permissão para usar, desde que citada a fonte.

Quando nós falamos sobre pastoral é necessário falar sobre modelos. Existem diferentes modelos para diferentes contextos e situações. A Bíblia nos dá os princípios. O contexto nos fornece a arena na qual a pastoral será desenvolvida. Essencialmente, a atividade pastoral (ou ministério) no Antigo Testamento é, em primeiro lugar, contextual. Orlando Costas afirma que a nossa pastoral "deve estar orientada as situações concretas" (1975:100) em que vive o ser humano. Isso significa que a práxis pastoral depende de sua própria situação. A pastoral não é um fim em si mesma. Ela é uma maneira para desenvolver a missão e a prioridade de Deus. Ela é um serviço (ministério) para alcançar o amor redentivo de Deus no mundo. Ela é contextual porque depende das circunstâncias específicas de cada contexto.

Se a atividade pastoral tem a mesma forma e modelo para todos os lugares, ela torna repetitiva e imitativa. O alvo é ser autóctone porque ela é uma resposta ao seu próprio contexto. Isto é o que acontece no Antigo Testamento. Por exemplo, quando José estava no Egito, ele desenvolveu uma pastoral com um estilo administrativo. Quando o povo de Deus estava vivendo como escravos no Egito, Moisés tem que desenvolver uma pastoral de libertação. Ester desenvolveu uma pastoral em busca de conquista, promoção e defesa dos direitos civis. Ezequiel teve que desenvolver uma pastoral política em tempos de crise. Esses exemplos demonstram a necessidade e importância de desenvolvermos uma pastoral que seja relevante ao seu contexto atual. A pastoral só será relevante, criativa e efetiva se for contextual.

Em segundo lugar, a práxis pastoral no Antigo Testamento é uma resposta a missão de Deus. É uma resposta porque Deus age primeiro. Neste sentido, pastoral no Antigo Testamento é pastoral a caminho -- em movimento, seguindo a ação de Deus. Paul Hiebert disse que a "ação missionária é primeiramente e acima de tudo o trabalho do próprio Deus" (1985:295). Deus é o pastor que lidera seu próprio povo. Se ele envie seu povo ao Egito, ao deserto, ao Cativeiro Babilônico, ou qualquer outro lugar, a atividade pastoral deve ser uma responsável resposta ao agir e controle de Deus. Isso significa submissão ao seu comando e autoridade. Deus é o primeiro interessado em salvar o mundo. A missão é dele porque Ele deu seu único Filho em favor do mundo, para morrer na cruz. Na história de Israel nós vemos diferentes estilos usados por Deus para alcançar a mesma missão. Por exemplo, Deus fez uso do sistema patriarcal, sistema sacerdotal, sistema real e sistema profético como diferentes estilos para cumprir a mesma missão, de alcançar todos os povos da terra.

Neste estudo, focalizaremos um tempo e lugar particular do povo Deus. Focalizaremos o ministério de Moisés e sua tarefa de um agente de libertação e missão. Seria uma grande erro estudar a pastoral de Moisés sem a perspectiva da missão. A partir dai sugerir algumas ações pastorais para a nossa própria caminhada.

Nesse momento é crucial perguntarmos, "Qual é o contexto deste particular tempo e lugar do povo de Deus?" Para responder essa pergunta, precisamos voltar ao livro de Gênesis. Deus criou o homem e a mulher (masculino e feminino) em sua própria imagem, os abençoou e os Deus um comando específico, "Sejam fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra" (Gn 1:28). Mesmo que existam alguns problemas na conecção histórica entre Gênesis e Êxodo, nós podemos ver algumas relações entre ambos. Em êxodo nós encontramos a fidelidade de Deus para com seus próprios comandos dados em Gênesis. Em Êxodo 1:7 diz que "os filhos de Israel foram fecundos, e aumentaram muito, e se multiplicaram, e grandemente se fortaleceram, de maneira que a terra se encheu deles". Quando Deus dá um comando, ao mesmo tempo Ele providencia ao seu povo as ferramentas necessárias e os equipa para cumprir suas ordenanças.

Esta multiplicação e aumento, contudo, tornou-se um problema. Um problema em duas áreas: interna e externa. A interna é que o povo se tornou numeroso, e consequentemente, visível. O mesmo problema havia sido experimentado por Abraão, Isaque e Jacó (Gn 18:18; 28:14). Eles tornaram-se tão poderosos que foram “convidados” para sair da terra. O problema externo é que Israel estava tornando-se um povo. O novo rei que não conhecia José assumiu o poder no Egito. Ele disse ao seu povo: “Eis que o povo dos filhos de Israel é mais numeroso e mais forte do que nós. Eia, usemos de astúcia para com ele, para que não se multiplique, e seja o caso que, vindo guerra, ele se ajunte com os nossos inimigos, peleje contra nós e sai da terra” (Êx 1:9-10).

Neste momento nós podemos ver o contexto sócio-político no qual Moisés foi chamado para ser líder. O problema fatual sócio-político aqui era um conflito de classe – Israelitas (classe dominada) versos Nós (classe dominante) (Êx 1:9). É agora um conflito entre duas nações: Israel e Egito. É um conflito entre uma sociedade dominante urbana contra uma classe rural pobre e dominada. Israel estava vivendo fora do Egito, em um contexto de agrícola e trabalhadores rurais. David Filbeck define uma sociedade camponesa como “uma sociedade dependente da elite ou dominante sociedade...Como uma sociedade, camponeses são dependentes da elite urbana que é econômica e politicamente mais poderosa” (1985:34).

Quando os irmãos de José foram ao Egito, depois do dramático encontro com eles e seu velho pai, José os advertiu a dizer o seguinte a Faraó: “Os teus servos somos pastores de rebanho” (Gn 47:3). Faraó permitiu José conceder uma parte de Gósen aos seus irmãos. “Então, José estabeleceu a seu pai e a seus irmãos e lhes possessão na terra do Egito, no melhor da terra, na terra de Ramessés, como Faraó ordenara” (Gn 47:11). No meio desta história existe uma frase muito importante que não pode passar despercebida de nós, que diz: “todo pastor de rebanho é abominação para os egípcios” (Gn 46:34). A palavra abominável (em hebraico “Tow` ebah” - to-ay-baw’) tem muitos significados duros: detestável, repugnável, infame, nauseante. Em outras palavras, ser pastor (de ovelha) era uma carreira despreza no Egito. A questão central era: por que todo pastor de rebanho era abominado para os egípcios? Era porque existiam diferenças culturais. Israel possuía um estilo de vida rural. Os egípcios possuíam um estilo de vida em sociedade de classe urbana. Ser um pastor era ter um estilo de vida rural, consequentemente, uma carreira rude para um povo rude.

Qual era o problema por detrás das cortinas? É claro: poder e dominação. Poder e dominação são as raízes das muitas injustiças e opressões no mundo.

A guerra prevista pelo rei como uma ameaça não é uma guerra para a destruição do “nós” em nosso texto, mas uma guerra da libertação, uma guerra para escapar do país. Isto é intolerável aos olhos do rei e seus associados, e eles decidiram tomar medidas necessárias (Pixley 1987:3).

“As medidas necessárias” do novo rei, como Pixley diz, foram severas opressões para controlar o crescimento de Israel. A opressão do rei teve três fazes monstruosas. Primeira, a face da exploração. Ele colocou sobre eles “feitores [mestres] de obras, para os afligirem com suas cargas. E os israelitas edificaram a Faraó as cidades-celeiros, Pitom e Ramessés” (Êx 1:11). Mas isso não funcionou – quanto mais opressos eles eram, tanto mais eles se multiplicavam e espalhavam. Segunda, a face da selvageria. Os egípcios, “com tirania, faziam servir os filhos de Israel e lhes fizeram amargar a vida com dura servidão, em barro, e em tijolos, e com todo o trabalho no campo; com todo o serviço em que na tirania os serviam” (Êx 1:13-14. Terceira, a face do genocídio. Agora, o rei deu sua última e decisiva ordem para as parteiras hebréias Sifrá e Puá: “Quando servirdes de parteira às hebréias, examinai: se for filho, matai-o; mas se for filha, que viva” (Êx 1:16). As parteiras, contudo, temeram a Deus e não fizeram o que o rei havia ordenado, deixando os meninos viverem. Como resultado do temor delas a Deus, “o povo aumentou e se tornou muito forte” (Êx 1:20). Jorge Pixley afirma que “o conflito entre o faraó e os israelitas começou a tomar lugar como um conflito entre vida e morte” (1987:5).

O objetivo deste estudo é pastoral. “O livro de Êxodo pode ser entendido como uma literatura, pastoral, litúrgico, e uma resposta teológica para um crise aguda” (Brueggeman 1994:680) (itálico meu). É meu propósito entender o livro de Êxodo como uma resposta pastoral para as necessidades dos israelitas. Para este propósito, eu sugiro quatro características pastorais no livro de Êxodo encontradas na ação de Deus através do trabalho de Moisés. Deus chamou Moisés para ser o líder, o pastor de Israel, para guiá-los num relacionamento pessoal com Ele. É nossa tarefa, primeiramente, entender o chamado de Moisés. Em seu chamado, Moisés teve uma profunda crise, que veremos a seguir.

1. O CHAMADO E SUAS CRISES

Cada chamado exige uma resposta.    A resposta pode ser positiva ou negativa. Entre o chamado e a resposta existe um período-espaço de tempo no qual a pessoa chama e a chamada desenvolve um relacionamento que envolve diálogo, incertezas, dúvidas, obediência, desobediência, medo, crises de identidade e talvez confrontação. Deus é que chama; Moisés é o chamado.

1.1. O Chamado de Moisés

Deus chamou Moisés para ser Seu agente em uma situação e contexto muito específico. Sua vocação era uma resposta tanto a Deus como para Seu povo. Existiam pelo menos dois aspectos para este chamado. Primeiro, Deus estava consciente da sofrimento de Israel. Segundo, os israelitas clamaram e choraram Moisés com isso sofria. Assim, havia uma dimensão divina como também uma dimensão humana.

Deus disse à Moisés, “Pois o clamor dos filhos de Israel chegou até mim, e também vejo a opressão com que os egípcios os estão oprimindo” (Êx 3:9). Deus é Deus de misericórdia e compaixão. Havia um povo oprimido que precisa ser libertado. É neste contexto que Deus chama Moisés para ser Seu agente para libertar Seu povo. Quando Deus chamou Moisés, Ele disse, “Vem, agora, e eu te enviarei a Faraó, para que tires o meu povo, os filhos de Israel, do Egito” (Êx 3:10). Facilmente inferimos três movimentos neste verso:

1. A indignação de Deus: “Vem, agora” significa “chega, basta, não mais opressão, é tempo de acabar com essa opressão”.

2. A resposta de Deus: “e eu te enviarei a Faraó”. Moisés é o agente de Deus para libertar Seu povo.

3. O propósito do chamado de Moisés: “para que tires o meu povo, os filhos de Israel, do Egito”

Parafraseando a intenção de Deus neste verso, podemos dizer, “Eu estou vendo a situação do meu povo no Egito. Eu não quero que eles sofram mais. Então, vem agora Moisés para ser o meu agente para libertar meu povo desta opressão. Moisés, vá a Faraó e diga a ele o meu propósito para o meu povo”.

Quase todo chamado e vocação surge em meios a crises. Por exemplo, Jonas, Jeremias, Timóteo e outras pessoas experimentaram crises em seus chamados. Muitos pastores(as), missionários(as), seminaristas, profissionais liberais, passam por crises. Moisés não é diferente neste processo. De fato, Moisés noa ajuda a compreender o processo da crise em seu chamado. Fácil é julgar Moisés na maneira como objetou ao chamado de Deus. Nós precisamos levar em consideração que,

Moisés não havia vivendo com o povo oprimido no Egito. Ele era publicamente conhecido como a filho da filha de faraó, que havia vivido no palácio real, e que estava ausente do país por um longo período, vivendo como um exilado em Midiã. É natural que ele perguntasse se os israelitas iriam aceitá-lo como um profeta de Deus (Pixley 1987:20).

Tendo isto em mente, vamos ver os cinco estágios da crise no processo do chamado de Moisés.

1.1.1. A Crise de Identidade Pessoal

“Quem sou eu para ir a Faraó e tirar do Egito os filhos de Israel?” (Êx 3:11)

“Quem sou eu” significa “eu sou uma pessoa simples e comum”. Moisés tem um sentimento, que comparado com os outros, ele não é qualificado para esta missão. “Quem sou eu?” é também é também uma experiência de medo. Para ele, Faraó é muito poderoso e ele o conhecia muito bem porque havia vivido em sua casa. “Quem sou eu?” é o início de cada vocação pastoral. É o confronto com a nossa própria identidade e personalidade. É o encontro conosco mesmo e com nossa finitude. É ainda o confronto com a nossa incapacidade para fazer as coisas acontecerem. Nós geralmente pensamos que somos mais poderosos do que realmente somos, mas quando vemos a realidade, percebemos que não somos tão poderosos como pensamos que seríamos. Muitos pastores(as) e missionários(as) já passaram por essa experiência. Antes do chamado julgavam-se aptos e prontos. Depois do chamado, a inevitável pergunta: “eu Senhor, tem certeza?”.

A resposta de Deus a pergunta de Moisés “quem sou eu?” Ele disse, “Eu serei contigo; e este será o sinal de que te enviei: depois de haveres tirado o povo do Egito, servireis a Deus neste monte” (Êx 3:12). A resposta de Deus ao questionamento de Moisés é um sinal, o qual é Sua própria presença (“Eu serei contigo”). Deus estava tentando comunicar a Moisés que Sua presença, como um sinal, iria mostrar a faraó que Ele o havia enviado até ele. Em outras palavras, Moisés seria o agente humano, mas de fato Deus está por detrás da cena. Não convencido, acordo não fechado, surge a segunda crise.

1.1.2. A Crise de Identidade de Deus e do Povo

“Disse Moisés a Deus: Eis que, quando eu vier ao filhos de Israel e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós outros; e eles me perguntarem: Qual é o seu nome? Que lhes direi? (Êx 3:13).

O segundo aspecto da crise de Moisés é sobre Deus como também seu povo. O foco agora sai de si próprio e volta-se para Deus e o povo. Se a primeira crise a pergunta crítica foi “quem sou eu?”, na Segunda crise a pergunta crítica é “quem é você?” A crise de Moisés neste momento não esta mais conectado a faraó, mas a Deus e Seu povo. Moisés esta dizendo a Deus: “suponhamos que eu vá ao povo israelita”. Moisés havia crescido dentro do palácio. Ele não tinha tido contato com os israelitas. De fato, ele era um estranho para eles. Isso é que esta por detrás da questão, “Eis que (suponhamos que eu vá), quando eu vier ao filhos de Israel e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós outros; e eles me perguntarem: Qual é o seu nome? Que lhes direi? (Êx 3:13). O problema de Moisés era sobre a identidade de Deus. Quando ele pergunta “qual é o seu nome” ele na verdade, com sinceridade, estava perguntando “quem é você?” O nome era crucial para a identidade da pessoa. O livro de êxodo não nos fala nada sobre o relacionamento entre Moisés Deus durante sua vida no palácio. Isto provavelmente demonstra que Moisés tinha poucas idéias a respeito de Deus, Iahweh. Como poderia ele aceitar uma missão vinda de Deus se ele não conhecia quase nada a respeito desse Deus. Assim, sua pergunta é lógica – “você, que esta me enviando para esta missão, quem é você?” Não vejo aqui uma atitude de descrédito, refutando a autoridade de Deus. Parece que Deus sabe da importância desta momento e Sua resposta foi longa, no sentido de persuadi-lo.

14 Disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU que me enviou a vós outros.

15 Disse Deus ainda mais a Moisés: O Senhor, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, me enviou a vós outros; este é o meu nome eternamente, e assim serei lembrado de geração em geração.

16 Vai, ajunta os anciãos de Israel e dize-lhes: : O Senhor, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, me apareceu dizendo: Em verdade vos tenho visitado e visto o que vos tem sido feito no Egito.

17 Portanto, disse eu: Far-vos-ei subir da aflição do Egito para a terra do cananeu, do hebreu, do heteu, do amorreu, do ferezeu, do heveu e do jebuseu, para uma terra que mana leite e mel.

18 E ouvirão a tua voz; e irás, com os anciãos de Israel, ao rei do Egito e lhe dirás: O Senhor, O Deus dos hebreus, nos encontrou. Agora, pois, deixa-nos ir a caminho de três dias para o deserto, a fim de que sacrifiquemos ao Senhor, nosso Deus.

19 Eu sei, porém, que o rei do Egito não vos deixará ir se não for obrigado por mão forte.

20 Portanto, estenderei a mão e ferirei o Egito com todos os meus prodígios que farei no meio dele; depois, vos deixará ir.

21 Eu darei mercê a este povo aos olhos egípcios; e, quando sairdes, não será de mãos vazias.

22 Cada mulher pedirá à sua vizinha e à sua hóspeda jóias de prata, e jóias de ouro, e vestimentas; as quais porei sobre vossos filhos e sobre vossas filhas; e despojareis os egípcios (Êx 3:14-22).

Nesta resposta nós encontramos pelo três questões importantes. Primeira, pela primeira vez Deus definiu-se a si mesmo para Moisés – “Eu Sou o que Sou”. Segunda, Deus fornece a Moisés uma ponte – “O Senhor, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, me enviou a vós outros; este é o meu nome eternamente, e assim serei lembrado de geração em geração” (Êx 3:15). Esta ponte mostraria que Moisés estava conectado com Israel, Terceiro, Deus fornece a Moisés uma instrução específica sobre a liderança e tradição de Israel – “Vai, ajunta os anciãos de Israel e dize-lhes: O Senhor, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, me apareceu dizendo: Em verdade vos tenho visitado e visto o que vos tem sido feito no Egito” (Êx 3:16). Agora Moisés esta preparado para ir e superar a crise sobre Deus e Seu povo. Moisés sabe que Deus é “Eu Sou”.  Ele também sabe como estar conectado com o povo e com se relacionar com a liderança (anciãos) de Israel. Ele esta preparado para ir, mas a terceira crise explode.

1.1.3. A Crise de Autoridade Pessoal

“Respondeu Moisés: Mas eis que não crerão, nem acudirão à minha voz, pois dirão: O Senhor não te apareceu” (Êx 4:1).

O elemento central nesta terceira crise diz respeito as “credenciais.” O que o Moisés está perguntando agora é uma mais vez lógico. Sua inquietação pessoal é sobre as credenciais para ser o agente de Deus. Em outras palavras, ele está pedindo por credibilidade, aceitabilidade, probidade (confiabilidade) para esta tarefa. O problema de Moisés era “E se eles não acreditarem em mim ou não derem ouvidos às minhas palavras e ainda digam, ‘O senhor não te apareceu coisa nenhuma’. Na última crise, nós vimos que Deus disse para Moisés: “Vai, ajunta os anciãos de Israel e dize-lhes: O Senhor, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, me apareceu dizendo...” (Êx 3:16). ). Mesmo que Deus tenha dado essas duras palavras para Moisés, não foi bastante para convencer Moisés que as pessoas prestariam atenção a ele. A inquietação de Moisés era: quais são minhas credenciais? Moisés queria algo que mostrasse que ele não estava mentindo e que ele tinha uma revelação especial para esta tarefa. Se o problema é revelação que possa trazer credibilidade para a sua missão, vejamos a resposta de Deus:

2 Ao que lhe perguntou o Senhor: Que é isso na tua mão. Disse Moisés: uma vara.

3 Ordenou-lhe o Senhor: Lança-a no chão. Ele a lançou no chão, e ela se tornou em cobra; e Moisés fugiu dela.

4 Então disse o Senhor a Moisés: Estende a mão e pega-lhe pela cauda (estendeu ele a mão e lhe pegou, e ela se tornou em vara na sua mão);

5 para que eles creiam que te apareceu o Senhor, o Deus de seus pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó.

6 Disse-lhe mais o Senhor: Mete agora a mão no seio. E meteu a mão no seio. E quando a tirou, eis que a mão estava leprosa, branca como a neve.

7 Disse-lhe ainda: Torna a meter a mão no seio. (E tornou a meter a mão no seio; depois tirou-a do seio, e eis que se tornara como o restante da sua carne.)

8 E sucederá que, se eles não te crerem, nem atentarem para o primeiro sinal, crerão ao segundo sinal.

9 E se ainda não crerem a estes dois sinais, nem ouvirem a tua voz, então tomarás da água do rio, e a derramarás sobre a terra seca; e a água que tomares do rio tornar-se-á em sangue sobre a terra seca.

Este sinal maravilhoso tinha o propósito de demonstrar ao povo que “te apareceu o Senhor, o Deus de seus pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó”(Êx 5:8). Se Moisés estava procurando uma “evidência (sinal) externa” para mostrar ao Israelitas que Deus havia aparecido para ele, finalmente ele tem agora. Mesmo que Moisés tenha em sua mão um poderoso cajado, como um instrumento do poder e ação de Deus, ele ainda não esta convencido. Ele precisa de mais evidências e isto provoca mais uma crise.

1.1.4. A Crise de Inadequação-Influência Pessoal

“Então, disse Moisés ao Senhor: Ah! Senhor! Eu nunca fui eloqüente, nem outrora, nem depois que falaste a teu servo; pois sou pesado de boca e pesado de língua” (Êx 4:10).

Neste momento Moisés vira-se para si mesmo. Ele apela para Deus em termos de sua inadequação-influência pessoal. Ele expressa duas realidades em sua vida. Primeira, ele nunca havia sido eloqüente. Segunda, ele era fraca no discurso (boca e língua pesada). Moisés estava tentando convencer a Deus que ele não tinha condições alguma para realizar esta tarefa porque ele era fraco no falar, fraco diplomata ou um fraco orador para convencer Faraó. Moisés sabia que Faraó tinha uma forte função como político. Nesta arena, Moisés entende que é necessário ser um bom orador, falar rápido e claro. Quando Moisés diz, “Eu nunca fui eloqüente, nem outrora, nem depois que falaste a teu servo", ele quer dizer, “não é agora que eu vou ser capaz de ser”. Moisés então pensa que finalmente teria sido o checkmate. Como pode Deus dizer algo contra uma incapacidade pessoal? Aquilo era um fato em sua vida e quem poderia mudar. A resposta de Deus para foi esta:

11 Ao que lhe replicou o Senhor: Quem faz a boca do homem? ou quem faz o mudo, ou o surdo, ou o que vê, ou o cego?. Não sou eu, o Senhor?

12 Vai, pois, agora, e eu serei com a tua boca e te ensinarei o que hás de falar.

Nesta resposta para Moisés Deus esta dizendo que não nenhuma “incapacidade humana” que ele não possa reparar ou consertar. Deus é o criador, Moisés a criatura. Deus não somente iria ajudá-lo a falar, como também iria ensiná-lo sobre o que dizer. Deus é o Senhor, Moisés o servo. Assim, uma vez mais Deus chama Moisés para ir – Vai, pois, agora!” Moisés irá?

1.1.5. A Crise do Medo

“Ele, porém, respondeu: Ah! Senhor! Envia aquele que há de enviar, menos a mim” (Êx 4:13).

Esta foi a reação de Moisés: “envia qualquer outra pessoa para fazer isto”. Em outras palavras, envie outro para libertar o seu povo da escravidão. O problema real aqui é medo. Moisés parece não estar consciente de que Deus iria usá-lo para uma das mais importante intervenções na história da humanidade – a ação de Deus iria ser demonstrada de forma poderosa na história e Moisés é convidado para participar ativamente como o agente de Deus. Mas Moisés estava tentando resistir. E ao medo de Moisés Deus responde assim:

14 Então se acendeu contra Moisés a ira do Senhor, e disse ele: Não é Arão, o levita, teu irmão? eu sei que ele pode falar bem. Eis que ele também te sai ao encontro, e vendo-te, se alegrará em seu coração.

15 Tu, pois, lhe falarás, e porás as palavras na sua boca; e eu serei com a tua boca e com a dele, e vos ensinarei o que haveis de fazer.

16 E ele falará por ti ao povo; assim ele te será por boca, e tu lhe serás por Deus.

17 Tomarás, pois, na tua mão esta vara, com que hás de fazer os sinais.

A ira de Deus se ascende contra Moisés porque ele não é capaz de entender que havia um povo sofrendo no Egito e Moisés não consegue ver além dos seus medos. Mas se o problema é medo, então Deus providencia alguém muito especial para Moisés, seu próprio irmão. “Arão é apresentado, mas ele não é mais do que um companheiro para Moisés” (Pixley 1987:27). A missão é de Moisés e não de Arão. Arão é alguém que ajudaria Moisés neste processo. Assim, Deus “não descartou Moisés por causa da sua dureza” (Knight 1977:21).

No ministério pastoral nós enfrentamos muitas situações nas quais sentimos medo e precisamos de pessoas (amigos/as) para nos ajudar a vencer essa barreira. Por exemplo, eu nunca vou esquecer da experiência que passei em meu primeiro ano de ministério pastoral. Um membro da minha igreja veio até mim dizendo que seu marido havia chegado em casa com o carro amaçado na frente, e que ela viu cabelos grudados ao sangue no pará-choque. Enquanto cozinhava, ela ouvia rádio e escutou uma reportagem dizendo de uma acidente na rodovia, que uma carro havia atropelado um homem, que morreu na hora, e que o motorista não havia parado para socorrer. Ela vem a mim e conta tudo. Como um pastor, que votou voto e obediência a Deus pela justiça, resolvi ir conversar com este homem que tinha fama de matador. Mas antes de ir eu disse para Deus: “eu vou, mas não sozinho, preciso de alguns companheiros”. Quem iria falar com o homem era eu, e não meus companheiros, mas a presença deles me enchia de coragem. Moisés conhecia não somente a fama de Moisés, mas também suas ações como político poderoso.

Assim Deus não somente dá a Moisés um companheiro mas também um cajado, com qual poderia realizar sinais maravilhosos (Êx 4:2). O cajado era um símbolo muito importante da práxis pastoral de Moisés. Esta palavra aparece 22 em Êxodo. “O cajado de Moisés é um atributo simbólico válido para aquele que pastorearia uma nação para fora do Egito” (Wildavsky 1984:38). O cajado era um símbolo e um instrumento. Em Meribá, o povo reclama contra Moisés e Arão. E Deus disse assim:

8 Toma a vara, e ajunta a congregação, tu e Arão, teu irmão, e falai à rocha perante os seus olhos, que ela dê as suas águas. Assim lhes tirarás água da rocha, e darás a beber à congregação e aos seus animais.

9 Moisés, pois, tomou a vara de diante do senhor, como este lhe ordenou.

10 Moisés e Arão reuniram a assembléia diante da rocha, e Moisés disse-lhes: Ouvi agora, rebeldes! Porventura tiraremos água desta rocha para vós?

11 Então Moisés levantou a mão, e feriu a rocha duas vezes com a sua vara, e saiu água copiosamente, e a congregação bebeu, e os seus animais (Nm 20:8-11).

Deus disse “fale à rocha”. Mas Moisés por sua conta e risco bate nela duas vezes, num ato de desobediência. Como resultado, Deus disse para ele e seu irmão: “Pelo que o Senhor disse a Moisés e a Arão: Porquanto não me crestes a mim, para me santificardes diante dos filhos de Israel, por isso não introduzireis esta congregação na terra que lhes dei” (Nm 20:12).

Em nossa práxis ministerial nós não temos o direito de usar os nossos “cajados” como instrumento de poder, raiva e ambição. Depois destas crises de identidade pessoal, identidade de Deus e seu povo, autoridade, inadequação-influência e medo, Moisés finalmente

18 Então partiu Moisés, e voltando para Jetro, seu sogro, disse-lhe: Deixa-me, peço-te, voltar a meus irmãos, que estão no Egito, para ver se ainda vivem. Disse, pois, Jetro a Moisés: Vai-te em paz.

19 Disse também o Senhor a Moisés em Midiã: Vai, volta para o Egito; porque morreram todos os que procuravam tirar-te a vida.

Moisés pega sua esposa, filhos, jumentos e volta para a terra do Egito, e ele tinha um cajado em suas mãos.

Por que é importante entender as crises de Moisés? Aaron Wildavsky nos dá uma excelente resposta, dizendo que “sem libertar-se de suas próprias dúvidas, Moisés não poderia liderar os Israelitas para fora da escravidão” (1984:26). Assim, do seu chamado precisamos ir para a sua resposta.

 

2. HUMANIDADE: SUCESSO E FRACASSO NA VIDA DE UM LÍDER

Moisés é um excelente estudo de caso de liderança. Ele não foi um homem perfeito, mas sua experiência e ministério nos fornece excelente lições a serem aprendidas. Moisés foi um líder que experimentou sucesso e fracasso, vitória e desapontamento, crises e soluções. Antes de tudo, ele era um ser humano, cheio de paixões, ansiedade, ira, sofrimentos e medo. Quando nós estudamos somente os casos de líderes bem sucedidos, nós corremos o risco de nos tornarmos excessivamente idealísticos e irreais. Nós precisamos estudar líderes que foram humildes o suficiente para reconhecer seus erros e quedas. Moisés foi alguém que experimentou ambos, vitória e fracasso. Apesar de tudo isso, a Bíblia nos afirma que Moisés era, em seu caráter, um homem de Deus.

2.1. O Caráter como Homem de Deus

“Esta é a bênção que Moisés, homem de Deus, deu aos filhos de Israel, antes da sua morte” (Dt 33:1).

“...como escrito na Lei de Moisés, homem de Deus” (Ed 3:2).

Precisamos cuidar da nossa integridade e Deus cuidará da nossa reputação. Muitas vezes invertemos esse processo. Nós queremos cuidar da nossa reputação e deixamos de lado nossa integridade. Reputação sem integridade é escândalo. Moisés foi um homem de integridade, força e caráter. Por que Moisés foi um considerado um homem de Deus?

2.1.1. Fidelidade

“o qual é fiel aquele que o constituiu, como também o era Moisés em toda a casa de Deus” ... “E Moisés era fiel em toda a casa de Deus, como servo, para testemunho das coisas que haviam de ser anunciadas” (Hb 3:2, 5).

Este verso nos mostra que a fidelidade de Moisés é espelhada em Deus, e no Sumo Sacerdote Jesus, o qual é fiel aquele que o constituiu. Moisés também é encontrado fiel na tarefa pela qual foi designado, em toda a casa de Deus. Paulo diz que “o que se requer dos despenseiros é que cada um deles seja encontrado fiel” (1 Co 4:2). Fidelidade e eficiência demonstram nossa lealdade para com Deus como também nosso desejo de buscar o melhor para Deus. Encontramos líderes que são fiéis mas não são eficazes. Por outro lado, encontramos líderes que são eficazes mas não são fiéis. Nosso alvo deve ser o de integrar ambos, como Moisés fez em seu ministério.

Em Hebreus 11:23-29 nós podemos ver como Moisés é classificado como alguém que realmente viveu e trabalhou pela fé. O texto diz:

23 Pela fé Moisés, logo ao nascer, foi escondido por seus pais durante três meses, porque viram que o menino era formoso; e não temeram o decreto do rei.

24 Pela fé Moisés, sendo já homem, recusou ser chamado filho da filha de Faraó,

25 escolhendo antes ser maltratado com o povo de Deus do que ter por algum tempo o gozo do pecado,

26 tendo por maiores riquezas o opróbrio de Cristo do que os tesouros do Egito; porque tinha em vista a recompensa.

27 Pela fé deixou o Egito, não temendo a ira do rei; porque ficou firme, como quem vê aquele que é invisível.

28 Pela fé celebrou a páscoa e a aspersão do sangue, para que o destruidor dos primogênitos não lhes tocasse.

29 Pela fé os israelitas atravessaram o Mar Vermelho, como por terra seca; e tentando isso os egípcios, foram afogados.

2.1.2. Servo

“Assim, morreu ali Moisés, servo do Senhor...” (Dt 34:5).

“...Lei de Deus, que foi dada por intermédio de Moisés, servo de Deus...” (Ne 10:29).

“...escritas na Lei de Moisés, servo de Deus...” (Dn 9:11).

“Lembrai-vos da Lei de Moisés, meu servo...” (Ml 4:4).

“E Moisés era fiel em toda a casa de Deus, como servo, para testemunho das coisas que haviam de ser anunciadas” (Hb 3:5).

“e entoavam o cântico de Moisés, servo de Deus...” (Ap. 15:3)

Ser um servo é uma condição para todas aquelas pessoas que desejam ser líderes. Moisés era um servo. Somente um servo pode suportar todas as circunstâncias que Moisés passou. O povo o confrontou, negligenciou, desobedeceu e o traiu, mas Moisés continua liderando-os para conquistar a terra prometida e sua liberdade. Ele foi chamado por Deus “meu servo” (Ml 4:4). Muitos líderes preocupam-se sobre como o povo os chama (pastor, reverendo, mestre, doutor), do que sobre como Deus pensa a nosso respeito. Precisamos sempre nos lembrar que Deus assim deseja dizer a nosso respeito: “Muito bem, servo bom e fiel; sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor” (Mt 25:21). Liderança é serviço em ação para aquelas pessoas as quais Deus nos deu a responsabilidade de cuidar. Por isso, imitamos Jesus, que disse que “o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos” (Mc 10:45). Líderes são pessoas que devem “andar como ele andou” (1 Jo 2:6).

2.1.3. Humildade

“Ora, Moisés era homem mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra” (Nm 12:3.)

Como um homem de Deus Moisés foi um servo humilde. A Bíblia diz que “Ele [Deus] escarnece dos escarnecedores, mas dá graça aos humildes” (Pv 3:34). E também que “Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes. Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que a seu tempo vos exalte” (1 Pe 5:5-6). Uma das questões centrais na vida do Faraó era o orgulho. Moisés e Aarão precisaram confrontá-lo, dizendo, “Assim diz o Senhor, o Deus dos hebreus: Até quando recusarás humilhar-te diante de mim? Deixa ir o meu povo, para que me sirva” (Êx 10:3). O testemunho bíblico sobre Moisés, nesta questão da humildade, é incrível Afirma que este homem “era homem muito humilde, mais do que todos os homens que havia sobre a terra” (Nm 12:3)

2.1.4. Oração

Ação pastoral sem oração é o mesmo que ação sem permissão. A maioria dos pastores sofre nesta área de suas vidas. Os dois principais problemas na vida dos pastores são: a falta de atenção na sua espiritualidade e a falta de atenção na vida de sua família. Moisés ajuda-nos a entender quão crucial é a oração no ministério, especialmente em relação a aquelas pessoas que são osso duro de roer, que nos traíram. Moisés ora pelo povo, e por seu irmão Aarão, que o traiu incitando povo. Diante desta trágica experiência Moisés disse:

18 Prostrei-me perante o Senhor, como antes, quarenta dias e quarenta noites; não comi pão, nem bebi água, por causa de todo o vosso pecado que havíeis cometido, fazendo o que era mau aos olhos do Senhor, para o provocar a ira.

19 Porque temi por causa da ira e do furor com que o Senhor estava irado contra vós para vos destruir; porém ainda essa vez o Senhor me ouviu.

20 O Senhor se irou muito contra Arão para o destruir; mas também orei a favor de Arão ao mesmo tempo.

21 Então eu tomei o vosso pecado, o bezerro que tínheis feito, e o queimei a fogo e o pisei, moendo-o bem, até que se desfez em pó; e o seu pó lancei no ribeiro que descia do monte.

22 Igualmente em Taberá, e em Massá, e em Quibrote-Hataavá provocastes à ira o Senhor.

23 Quando também o Senhor vos enviou de Cades-Barnéia, dizendo: Subi, e possuí a terra que vos dei; vós vos rebelastes contra o mandado do Senhor vosso Deus, e não o crestes, e não obedecestes à sua voz.

24 Tendes sido rebeldes contra o Senhor desde o dia em que vos conheci.

25 Assim me prostrei perante o Senhor; quarenta dias e quarenta noites estive prostrado, porquanto o Senhor ameaçara destruir-vos.

26 Orei ao Senhor, dizendo: ó Senhor Jeová, não destruas o teu povo, a tua herança, que resgataste com a tua grandeza, que tiraste do Egito com mão forte.

27 Lembra-te dos teus servos, Abraão, Isaque e Jacó; não atentes para a dureza deste povo, nem para a sua iniqüidade, nem para o seu pecado;

28 para que o povo da terra de onde nos tiraste não diga: Porquanto o Senhor não pôde introduzi-los na terra que lhes prometera, passou a odiá-los, e os tirou para os matar no deserto.

29 Todavia são eles o teu povo, a sua herança, que tiraste com a sua grande força e com o teu braço estendido. (Dt 9:18-29)

Na tarefa da liderança pastoral nós facilmente corremos o risco de transformar amor em ódio. Quanto pastores que passaram por igrejas e experimentaram essa relação. Como resultado, muitos pastorados passam a ser desenvolvidos na base da frustração. A oração não somente é um poderoso instrumento no ministério, mas também nos torna mais silente e mais dependente de Deus. Também permite que coloquemos nossas dores, frustrações e qualquer sentimento de traição nas mãos de Deus. Somente assim podemos vencer essas situações e sentimentos. Se falharmos nesse processo, a derrota nos espera.

2.1.5. Profeta

“E nunca mais se levantou em Israel profeta como Moisés, a quem o Senhor conhecesse face a face, nem semelhante em todos os sinais e maravilhas que o Senhor o enviou para fazer na terra do Egito, a Faraó: e a todos os seus servos, e a toda a sua terra; e em tudo o que Moisés operou com mão forte, e com grande espanto, aos olhos de todo o Israel” (Dt 34:10-12).

Moisés não somente era o homem mais humilde da face da terra. Mas também um profeta sem igual em Israel. No início Moisés teve problemas para aceitar o ofício de profeta. Mesmo que Deus tenha dito que o ajudaria a falar e o ensinaria o que ele deveria falar (Êx 4:12). Moisés rapidamente recusou. E neste contexto, Deus disse: “Eis que te tenho posto como Deus a Faraó, e Arão, teu irmão, será o teu profeta” (Êx 7:1). Moisés era para ser o profeta e não Arão. Moisés logo aprendeu que Deus era mais poderoso que Faraó e ele mesmo torna-se o homem “a quem o Senhor conheceu face a face” (Dt 34:10). Esta era a fonte da sua autoridade: o próprio Deus.

2.1.6. Realizador

“E em tudo o que Moisés operou com mão forte, e com grande espanto, aos olhos de todo o Israel” (Dt 34:10).

Finalmente, Moisés foi um homem que realizou obras maravilhosas (de poder). Ele era não somente humilde, não somente o maior profeta, não somente conheceu o Senhor face a face, mas também “em tudo operou com mão forte, e com grande espanto, aos olhos de todo o Israel” (Dt 34:10). Ou seja, Moisés foi um homem de ação-poder. E isto fluía do  seu relacionamento com Deus. Assim ele demonstrou consistência e integridade em sua vida.

Práxis é central na liderança pastoral. Em Deus nós somos equipados por seu poderoso poder não somente para influenciar positivamente outros como também realizar obras que trarão honra ao seu nome.

2.2. Fracasso e Desapontamento

Liderança não somente uma vida de sucesso. Fracasso e desapontamento também fazem parte da vida dos líderes. Em Números 20:2-13 nós vemos o fracasso de Moisés em Meriba. Deus disse para Moisés,

8 Toma a vara, e ajunta a congregação, tu e Arão, teu irmão, e falai à rocha perante os seus olhos, que ela dê as suas águas. Assim lhes tirarás água da rocha, e darás a beber à congregação e aos seus animais.

9 Moisés, pois, tomou a vara de diante do senhor, como este lhe ordenou.

10 Moisés e Arão reuniram a assembléia diante da rocha, e Moisés disse-lhes: Ouvi agora, rebeldes! Porventura tiraremos água desta rocha para vós?

11 Então Moisés levantou a mão, e feriu a rocha duas vezes com a sua vara, e saiu água copiosamente, e a congregação bebeu, e os seus animais.

12 Pelo que o Senhor disse a Moisés e a Arão: Porquanto não me crestes a mim, para me santificardes diante dos filhos de Israel, por isso não introduzireis esta congregação na terra que lhes dei.

13 Estas são as águas de Meribá, porque ali os filhos de Israel contenderam com o Senhor, que neles se santificou (Nm 20:8-13).

Deus disse para Moisés, falai à rocha, mas Moisés, em sua ira, bateu (feriu) na rocha duas vezes com a vara. Como resultado, Deus deu a seguinte sentença: “Porquanto não me crestes a mim, para me santificardes diante dos filhos de Israel, por isso não introduzireis esta congregação na terra que lhes dei” (Nm 20:12). Assim, Moisés e outras pessoas não entrariam na terra prometida. Muitas discussões existem sobre o porque disto. Menciono quatro delas:

2.2.1. Abuso de Poder e da Liderança

Moisés foi chamado por Deus para ser seu servo. Enquanto ele se comportou como servo, Deus concedeu a ele sucesso e vitória. Mas em Meriba Moisés tomou vantagem da sua autoridade como líder e usou a liderança como forma de poder. Wildavsky observa que:

Moisés não somente distanciou-se de Deus duvidando da capacidade da sua obra, mas também distanciou-se do povo assumindo um poder como se fosse de Deus (1984:156).

Moisés quis mostrar seu poder em frente de todos os Israelitas. Com essa atitude, ele desonrou Deus como o único santo aos olhos dos Israelitas. Se ele tivesse somente falado com a rocha, Deus o teria honrado. Mas com sua atitude, Moisés queria honrar a si próprio. Esta questão é central na liderança. Como líderes nós somos tentados a pensar que podemos resolver todos os problemas. Precisamos lembrar o que disse o Salmista:

11 Uma vez falou Deus, duas vezes tenho ouvido isto: que o poder pertence a Deus.

12 A ti também, Senhor, pertence a benignidade; pois retribuis a cada um segundo a sua obra.

As pessoas observam seus líderes. Ser um líder significa Ter a responsabilidade de ser um exemplo para eles. Não é uma tarefa fácil, mas é requerido para todas as pessoas que querem servir a Deus como líderes. Wildavsky disse:

Para o bem ou para o mal, suas obras (e talvez mais do que as palavras) falam por eles. Líderes são também mestres no sentido em que seus comportamentos constituem um exemplo que os seguidores observam...eles aprenderão. O senhor ira-se porque Moisés ensinou uma lição errada – ira sobre deliberação, força e não persuasão, divisão e não unidade, rebelião e não fé (1984:163).

Assumindo que ele e seu irmão eram muito poderosos, o próximo passo foi inevitável: auto-admiração e auto-adoração

2.2.2. Auto-Admiração e Auto-Adoração

Moisés e Arão estavam conscientes a respeito do que Deus havia afirmado no passado, “nenhum de todos os homens que viram a minha glória e os sinais que fiz no Egito e no deserto, e todavia me tentaram estas dez vezes, não obedecendo à minha voz, nenhum deles verá a terra que com juramento prometi o seus pais; nenhum daqueles que me desprezaram a verá” (Nm 14:22-23). Deus é o único a ser adorado. Ninguém pode usurpar a glória de Deus. De acordo com Números 20:10, Moisés e Arão ajuntaram o povo em assembléia na frente da rocha e Moisés disse a eles: “Ouvi agora, rebeldes! Porventura tiraremos água desta rocha para vós?” Tiraremos? Quem, Moisés e Arão ou Moisés e Deus? Não importa. O que importa é que “Moisés foi culpado pela mais terrível forma de idolatria – a auto-adoração” (Wildavsky 1984:163). Isto significa que Moisés assumiu o lugar de Deus.

2.2.3. Força por Fé

Quando Moisés bateu na rocha duas vezes, Deus disse a ele, “não me crestes a mim [o suficiente]” (Nm 20:12). Fé, como já vimos, foi uma característica forte na vida e ministério deste líder. Ele usou o cajado com fé. Ele foi a Faraó por fé. Deixou o Egito pela fé. Cruzou o mar vermelho e dirigiu o povo a uma terra seca pela fé. Mas agora, desafortunadamente, ele desobedeceu à voz de Deus e usou o cajado não com fé, mas com sua própria força e poder. Ele não creu em Deus o suficiente. “Em vez de exortar um povo de dura cerviz para ter uma grande fé, Moisés condescendeu ao pedido deles com uma atitude arrogante” (1984:156).

Em Marcos 10 Jesus nos ensina a usar o poder como um instrumento de serviço e não como um instrumento par ser serviço.

2.2.4. Continuidade e Descontinuidade

Continuidade e descontinuidade refere-se a um inevitável processo na vida de qualquer líder. Descontinuidade é a falta de conexão com alguma coisa ou algo relacionado ao passado. Este falta de conexão pode ser por um processo natural ou radical de intervenção (como a por exemplo a morte); através de uma intervenção positiva, como por exemplo, quando líderes mudam-se ou através de um novo desafio em suas vidas, ou por meio de uma intervenção negativa, como más atitudes, mau caráter e desobediência.

Continuidade é o elo de conexão com alguma coisa ou algo relacionado ao presente e futuro. Na vida de Moisés podemos ver claramente este processo de continuidade e descontinuidade. Sua desobediência acelerou o processo no qual afetou sua liderança. Definitivamente isto veio da sua falta de fé. Deus disse a Moisés, “Porquanto não me crestes a mim, para me santificardes diante dos filhos de Israel, por isso não introduzireis esta congregação na terra que lhes dei” (Nm 20:12). Disse Deus ainda, “porquanto no deserto de Zim, na contenda da congregação, fostes rebeldes à minha palavra, não me santificando diante dos seus olhos, no tocante às águas (estas são as águas de Meribá de Cades, no deserto de Zim)” (Nm 27:14).

Mesmo que Moisés tenha falhado em obedecer a Deus, ele teve uma incrível preocupação para com o povo. Moisés pediu a Deus um líder para ficar em seu lugar. Isto nos mostra que sua preocupação para com o povo era maior do que sua preocupação para ele mesmo. O povo não poderia viver como ovelhas que não tem pastor. Por causa disso, Deus chamou Josué para ser o sucessor de Moisés, para continuar o processo de libertação que Deus havia começou no Egito. Como mencionado anteriormente, Moisés demonstra sua humildade agindo desta forma. Moisés disse a Deus, “Que o senhor, Deus dos espíritos de toda a carne, ponha um homem sobre a congregação, o qual saia diante deles e entre diante deles, e os faça sair e os faça entrar; para que a congregação do Senhor não seja como ovelhas que não têm pastor” (Nm 27:15-17).

Uma das grandes lições na vida e liderança de Moisés que devemos aprender é esta: “lideres de pessoas livres não deveriam ser figuras cúlticas”. A esta tentação Jesus respondeu: “Ao Senhor teu Deus adorarás e só a ele darás culto” (Lc 4:8).

 

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Esse artigo é de autoria de Jorge Henrique Barro. Você tem permissão para usar, desde que citada a fonte.

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