Quem sou

Introdução

A partir de Atos 13:1 a 28:31 nós encontramos a última narrativa geográfica de Lucas, em seu esforço por demonstrar que Evangelho deveria ser levado à todas a nações. Para isto, Lucas enfatiza a missão da igreja de Antioquia da Síria, e o ministério do Apóstolo Paulo nos principais centros urbanos de sua época. Este artigo focaliza a primeira parte, a missão da igreja de Antioquia da Síria.

 

Antioquia foi a cidade onde a fundação para a missão mundial foi estabelecida para alcançar os confins da terra. Ela era uma cidade cosmopolitana, a metrópoles da Síria, e depois tornou-se a capital da província Romana na Ásia.

 

Uma breve preceptiva histórica desta cidade que ela foi fundada por em 300 BC, no rio Orontes, aproximadamente 26 km do Mediterrâneo e cerca 480 km (ao norte) de Jerusalém.  Antioquia tornou-se a capital da dinastia dos Seleucidas, cujo nome vem de Antioco I, pai de Seleuco, o qual era general de Alexandre o Grande.  Em 64 BC, debaixo da liderança de Pompei, os Romanos chegaram em Antioquia, controlando-a como seu centro administrativo e milita.  E em 27 BC ela tornou-se a capital da Síria.  Sendo um importante centro comercial e ações militares, Antioquia tornou-se em um influente centro urbano, uma cidade (polis) Helenística. Também, era a terceira cidade  do Império Romano, sendo um mosaico de culturas, conhecida como a “primeira cidade do Leste”.  DeVries entende que "Antioquia era a segunda somente em relação à Jerusalém como um centro do Cristianismo primitivo” (DeVries 1997:345).

 

Exceto Jerusalém, a cidade de Antioquia da Síria foi a mais importante cidade da história da igreja primitiva.  Através desta igreja de Antioquia da Síria a missão mundial foi estabelecida para alcançar os confins da terra.  Por isso se faz necessário olhar seu nascimento, testemunho, liderança, e alcance missionário.

 

O Nascimento da Igreja

A igreja de Antioquia da Síria nasceu como resultado da grande “tribulação que sobreveio a Estevão, se espalharam até…Antioquia” (At 11:19). Esta igreja é uma filha da perseguição e Estevão tem parte em sua história. Depois do discurso de Estevão, e conseqüentemente sua morte, "levantou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém; e todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judéia e Samaria” (At 8:1).  Nada podia parar e impedir o avanço da palavra de Deus, porque “os que foram dispersos iam por toda parte pregando a palavra” (At 8:4).

 

Quem são “que foram dispersos por causa da tribulação que sobreveio a Estevão”? (At 11:19). Eles eram Judeus cristãos Helenistas, que falavam o grego.  A perseguição afetou quase toda a igreja, “exceto os apóstolos” (At 8:1).  Muito provavelmente a perseguição afetou mais os Helenistas, os quais foram para a Judéia e Samaria, e as cidades de Azoto, todas as cidades, e Cesárea na costa do Mediterrâneo (At 8:40).  Passando “pelas regiões da Judéia e Samaria” (At 8:1), eles finalmente chegaram “até a Fenícia, Chipre e Antioquia” (At 11:19).

 

Não podemos ignorar esse caráter de perseguição e sofrimento como elementos que produziram e influenciaram o nascimento desta igreja. Qualquer estudioso do crescimento da igreja jamais poderia imaginar que esta perseguição espalharia os cristãos da igreja primitiva não somente à Antioquia da Síria, mas aos confins da terra. “alguns deles, porém, que eram de Chipre e de Cirene, e que foram até Antioquia, falavam também aos gregos, anunciando-lhes o evangelho do Senhor Jesus” (At 11:20). Em seguida veremos que esta igreja, filha da perseguição, possuía líderes cheios de visão missionária. Perseguidos sim, mas não desanimados!

 

A Liderança da Igreja

Em sendo um cidade muti-étnica, "dividida em Gregos, Sírios, Judeus, Latinos e Africanos" (Bakke 1997:146), a igreja também reflete este caráter em sua liderança.  Uma multi-cultural e multi-étnica equipe formava a liderança pastoral desta igreja.  Isto mostra-nos a heterogeneidade como uma das marcas distintas da comunidade da fé.  "Havia na igreja de Antioquia profetas e mestres: Barnabé, Simeão por sobrenome Niger, Lúcio de Cirene, Manaém, colaço de Herodes o tetrarca e Saulo (At 13:1). Barnabé era um levita, de Chipre (At 4:36). Simeão, chamado Niger (Negro) muito provavelmente um prosélito judeu. Lucius era de Cirene, uma cidade Africana. Ele era um Gentio ou um Judeu com nome Romano. Manaém (Confortador) foi criado com Herodes Antipas, o tetrarca da Galiléia. Saul foi um ex-Fariseu e um cidadão Romano. Foi a partir desta variedade de contextos, culturas e raças que a liderança da igreja de Antioquia foi formada.

 

Não existe dúvida de que o líder mais proeminente desta igreja foi Barnabé, sendo a “ponte ideal entre dois mundos, uma pessoa confiada tanto pelos moradores que falavam o Aramaico em Jerusalém e as pessoas Helenistas de Chipre e Cirene” (Crowe 1997:92).  O trabalho missionário nesta cidade teve tanto sucesso que a “notícia…chegou aos ouvidos da igreja em Jerusalém" (At 11:22).  Desejando saber o que estava acontecendo, “eles enviaram Barnabé até Antioquia” (At 11:22).  Existem três hipóteses relacionadas a Barnabé. Primeira, ele era um Helenista moderado, tendo um relacionamento muito próximo aos apóstolos, o qual não precisou escapar da perseguição de Atos 8:1-3. Segunda, ele era um do grupo que fundou esta igreja. Terceiro, ele era um missionário independente que veio à Antioquia. Se existem dúvidas a respeito desta pessoa, por outro lado não existe nenhuma dúvida quanto ao seu caráter, sendo “um homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé” (At 11:24).

 

Barnabé teve uma importância fundamental na solidificação desta igreja.  Sua primeira atitude foi chamar Saulo para juntar-se a equipe, trazendo-o à Antioquia. Sua missão era “reunir a igreja e ensinar numerosa multidão” (At 11:26).  Como resultado desse esforço missionário nesta igreja eles tornaram-se os delegados (representantes) oficiais para viajar para todos os lugares, proclamando as boas novas do Senhor Jesus (At 13:2-3).

 

O Testemunho da Igreja

Infelizmente Lucas não dá-nos uma narrativa detalhada sobre o ministério desta igreja. Se esta igreja foi a primeira igreja que proclamou as boas novas do Senhor Jesus além das fronteiras Judaicas, tornando-se a iniciadora do movimento missionário ao mundo Gentílico, não poderíamos esperar mais detalhes desse tremendo esforço desta igreja, especialmente se aceitarmos que Lucas era proveniente de Antioquia da Síria. Contudo, os poucos detalhes que ele nos deu ajudam-nos ater uma do tipo de igreja que ele estava narrando. O testemunho desta igreja pode ser visto em pelo menos três momentos.

 

Testemunho para Todos

Esta igreja foi "plantada em Antioquia entre ambos Judeus e Gregos" (Towner 1998:422).  Os receptores desta mensagem foram Judeus e Gregos.  "Não anunciando a ninguém a palavra, senão somente aos judeus” (At. 11:19) deve ser entendido debaixo de dois conceitos da teologia de missão de Lucas. A frase primeiro aos Judeus, e depois aos Gentios não tem nada a ver com exclusividade, mas prioridade. E também tem a ver com o tema continuidade e descontinuidade da igreja (ou povo) como agente da missão. Lucas entende o papel dos Judeus e da igreja de Jerusalém neste processo (continuidade), mas também entende que o evangelho não esta confinado aos Judeus e a igreja de Jerusalém (descontinuidade). Por isso é que também somos informados por Lucas que “alguns deles, porém, que eram de Chipre e Cirene, e que foram até Antioquia, falavam também aos gregos” (At. 11:20).  Anunciavam a mensagem – qual mensagem? A mensagem “do evangelho [boas novas] do Senhor Jesus" (At. 11:20).

 

Se a igreja existe para ser um agente missionário para levar as boas novas do Senhor Jesus para todos, portanto ela deve proclamar a inclusividade, universalidade cruzando barreiras raciais, sociais, étnicas, culturais, transculturais, buscando os não-alcançados. Este foi o exemplo do testemunho desta igreja, entendendo que a vocação missionária da igreja é para todos!

 

Testemunho Contextualizado, Centrado na Proclamação do "Senhor Jesus"

Esta é a segunda  vez que Lucas usou a expressão "Senhor Jesus" relacionada ao evangelismo em Atos. Lucas usou a mesma expressão antes, porém com significado e aplicação diferente. Esta igreja testemunhou o “evangelho [boas novas] do Senhor Jesus” e “muitos, crendo, se converteram ao Senhor” e “muita gente se uniu ao Senhor” (At 11:20-21, 24).  É claro que o conteúdo da mensagem é o mesmo (o evangelho). Porém, eu creio que a expressão Senhor Jesus era a mais contextualizada para as pessoas da cidade de Antioquia da Síria, porque esta igreja estava atingindo um tipo de pessoas (Gregos) que não possuíam um entendimento teológico, como os Judeus. Eis porque, em minha opinião, Lucas não esta falando de conceitos teológicos como o Reino de Deus, Messias, Cristo, o Filho do Homem, o Santo, nomes com significado para a audiência judaica. Ë importante observar que “o termo Senhor possuía diferentes significados no mundo Helenístico, quando, como disse Paulo, há muitos deuses e muitos senhores (1 Co 8:5). Em Antioquia o título Senhor estava em uso corrente pelos pagãos para designar os deuses que eles adoravam tais como Isis e Serapis, e o imperador Romano era aclamado como Senhor no ritual do culto ao imperador” (Crowe 1997:105).

 

Desta forma, a igreja de Antioquia da Síria, sabendo deste contexto descrito acima a respeito da expressão Senhor, toma proveito para introduzir o evangelho, apresentando Jesus como Senhor Jesus. A tarefa missionária que não leva em consideração o contexto corre o risco de ser ineficaz e indiferente. Por outro lado, a tarefa missionária que se contextualiza sem missão não passa de inculturação. Missão e contexto são inseparáveis. Essa igreja proclamou o evangelho do Senhor Jesus. Jesus é a contextualização do evangelho para todos os povos!

 

Testemunho Sacrificial e Doador

A igreja de Antioquia não conflitos teológicos entre proclamação e ação social. Ela não proclamou em termos de palavra apenas. Ágabo previu, pelo Espírito, que viria uma severa fome por todo o mundo, isso no período do reinado de Cláudio (At 11:28).  Como resultado, “os discípulos, cada conforme as suas posses, resolveram enviar socorro aos irmãos que moravam na Judéia; o que eles, com efeito, fizeram enviando aos presbíteros por intermédio de Barnabé e Saulo” (At 11:29-30).

 

Muito provavelmente esta igreja conhecia o significa de necessidade. Ela sofreu com a falta de recursos financeiros quando ela estava sendo plantada. Porém agora, já que a igreja mãe estava em necessidade, é a igreja que foi perseguida que se levanta para ajudar. Que alegria para esses presbíteros da igreja de Jerusalém poder perceber pelas mãos de Barnabé e Saulo a oferta dos cristãos Antioquinos! (Ac. 11:30).

 

Missão e sacrifício parecem ser binômios que não pode ser separado na vida da igreja. Nem todo sacrifício que a igreja faz resulta em missão, mas toda ação missionária implica em sacrifício, quer seja ele financeiro, pessoal, coletivo, emocional, etc. Sem a perspectiva do sacrifício a igreja corre o risco de perder a fé, de ver o além; o além de si mesma e o além das possibilidades. O sacrifício é um dos termômetros mais precisos para mostrar o quanto a igreja esta perto ou longe da práxis de Jesus. O compromisso da igreja com a missão de Jesus esta em proporção direta com sua práxis sacrifical. Esta por sua vez, determinará ou não o quanto ela é uma igreja missionária, encharcada da presença de Jesus.

 

O Alcance Missionário

A igreja de Antioquia da Síria tinha um enorme senso de missão. Essa igreja entendeu que missão é a razão da sua existência. Ela, uma filha de Jerusalém e da perseguição, tornou-se a mãe de tantas outras igrejas, como resultado do seu esforço de enviar e suportar tantos missionários. Nesta igreja nós vemos não somente seu trabalho missionário, mas também a o trabalho missionário do Espírito Santo.  Enquanto eles estavam servindo (adorando) ao Senhor, e jejuando, o Espírito Santo disse, “Separai-me agora a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado. Então, jejuando e orando, e impondo sobre eles as mãos, os despediram” (At 13:2-3).

 

Assim, Antioquia da Síria torna-se a base para os missionários, e não Jerusalém. No regresso dos missionários, e suas viagens, eles retornavam a Antioquia. "E, tendo anunciado a palavra de Deus em Perge, desceram a Atália, e dali navegaram para Antioquia, onde [base] tinham sido recomendados a graça de Deus para a obra que haviam já cumprido.  Ali chegados, reunida a igreja, relataram quanto coisas fizera Deus com eles, e como abrira aos gentios a porta da fé. E permaneceram não pouco tempo com os discípulos” (At 14:26-28). Em seguida, no final agora da segunda viagem missionária, Paulo "tendo chegado a “Cesaréia, desembarcou, subindo a Jerusalém e, e tendo saudado a igreja, desceu para Antioquia. Havendo passado ali algum tempo, saiu, atravessando sucessivamente a região da Galácia e Frígia, confirmando todos os discípulos” (At 18:22-23).

 

Nós podemos aprender com esta igreja que o alcance missionário tem algumas fundações: o Espírito Santo, adoração, jejum e oração, investimento de autoridade e envio.

 

Espírito Santo e missão são inseparáveis. Mesmo correndo o risco de uma generalização, creio que a igreja missionária é aquele que ouve e se move debaixo da ação do Espírito. Para isto, é necessário que a igreja esteja aberta para as manifestações do Espírito.

 

Conclusão

Um dos meus professores, no Fuller Theological Seminary, destaca sete características desta igreja, as quais são muito relevantes para a nossa práxis hoje. São elas:

 

•    Ênfase evangelística

•    Pastorado Encorajador

•    Liderança Plural

•    Ensino Profético

•    Servir Sacrifical

•    Adoração Autêntica

•    Missão iniciada pelo Espírito (Hansen 1998a:n.p.).

 

Estas características nos revelam o quanto a igreja de Antioquia da Síria discerniu sua missão urbana, na realidade do seu contexto cultural e transcultural. Se a igreja de Jerusalém é conhecida como a Igreja Mãe do Cristianismo, por sua vez a igreja de Antioquia da Síria tornou-se conhecida como a Igreja Mãe do Mundo Gentílico, tornando-se um modelo de missão urbana. Foi este modelo que Barnabé e Paulo tinham em mente para plantar outras igrejas nas cidades que eles passaram. Esse mesmo modelo impulsionou Paulo para ser um missionário urbano, focalizando os principais centros urbanos do seu tempo, como: Antioquia da Pisidia (o centro civil e militar da Galácia), Filipos (a colônia e a cidade líder do distrito da Macedônia), Tessalônica, um emergente centro urbano cosmopolitano, Atenas (a cidade cheia de deuses), Corinto (a junção entre Leste e o Oeste), Éfesos (a guardiã do templo da grande Ártemis), Roma (a cidade chefe do império Romano). Não deveria também este modelo impulsionar nossa missão urbana?

 

Esse artigo é de autoria de Jorge Henrique Barro. Você tem permissão para usar, desde que citada a fonte.

Newsletters

Inscreva para receber as novidades de Missão Urbana. Indique alguém, basta inserir o nome e email. Obrigado!

Minha agenda

  • 07 - 09/09 - CONFERÊNCIA TARGET - ALPHAVILLE
  • 12 - 13/09 - SEMINÁRIO TEOLÓGICO REFORMADO DO AMAZONAS
  • 14 - 17/07 - FÓRUM DE MISSÃO TRANSFORMADORA - IGREJA BATISTA DA ORLA - NITERÓI
  • 21 - 24/09 - FÓRUM DE MISSÃO TRANSFORMADORA - IGREJA BATISTA MEMORIAL - BRASÍLIA
  • 24 - 27 /09 - FTSA - LONDRINA
  • 28 - 29/09 - REJUDES - SÃO PAULO