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Artigo Publicado na Revista Ultimato, nº 339
Autor: Jorge Henrique Barro

 

A história de Noé é fundamental para se entender o processo de desenvolvimento dos povos e das cidades. Noé teve três filhos: Sem, Cam e Jafé, e “a partir deles toda a terra foi povoada” (Gn 10.19). É a partir desta família que Deus “reinicia” o processo de desenvolvimento de um “novo mundo”. Se é reinício, houve um fim do início. E o que causou esse fim?

Ora, a terra estava corrompida aos olhos de Deus e cheia de violência. Ao ver como toda a humanidade havia corrompido sua conduta, Deus disse a Noé: “Darei fim a todos os seres humanos, porque a terra encheu-se de violência por causa deles. Eu os destruirei com a terra” (Gn 6.11-13).

A “violência e a corrupção” da conduta humana deram fim aos primeiros povoamentos e cidades. Os sonhos dos primeiros construtores, como Caim e outros, literalmente foram para debaixo d’água, com o dilúvio, pois “as águas prevaleceram sobre a terra cento e cinquenta dias” (Gn 7.24). Foram necessários quase cinco meses para destruir tudo quanto o ser humano havia construído até então, bem como o próprio jardim do Éden.

O recomeço nasce com a bênção de Deus: “Deus abençoou Noé e seus filhos dizendo-lhes: ‘Sejam férteis, multipliquem-se e encham a terra’” (Gn 9.1; ver também 9.7), e “a partir deles toda a terra foi povoada” (Gn 10.19). Este povoamento teria de acontecer com o compromisso, por parte de Noé e seus filhos, de não permitir que “violência e corrupção” da conduta humana se estabelecessem na terra novamente. Para certificar-se disso, Deus estabelece uma “aliança” com a família de Noé e a estende “para todas as gerações futuras” (Gn 9.12). Mas isto não é unilateral. Deus deixa claro que pedirá contas da vida do próximo (Gn 9.5) e afirma: “Quem derramar sangue do homem, pelo homem seu sangue será derramado; porque “à imagem de Deus foi criado o homem”” (Gn 9.6). Esta é a contrapartida da aliança. Deus exige a participação humana como compromisso responsável. A cláusula contratual que Deus impõe na aliança é para o benefício do próprio ser humano. Ou seja, os novos povoamentos e as construções das futuras cidades não poderiam se dar pelo uso e exercício da “violência”, como também seria necessário desenvolver uma nova percepção ético-moral para que a “corrupção” não encontrasse solo fértil para crescer. É com base nessas condições humanitárias que Deus disse: “Sejam férteis, multipliquem-se e encham a terra” (Gn 9.7). Encham a terra de gente “pacifica e íntegra”!

Dois elementos são fundamentais para Deus nas relações humanas: “paz e integridade”. Uma sociedade violenta e corrupta revela a ausência da “imagem de Deus” (Gn 9.6). A busca da paz e da integridade não se trata apenas de um esforço determinante para as relações humanas, mas, acima de tudo, de preservar o essencial – “a imagem de Deus no meio delas”.

Encontramos aqui uma função teológica impressionante para o exercício da missão do povo Deus nas cidades: “a imagem de Deus no próximo”. A questão da “violência” e da “corrupção” não pode ser vista e abordada apenas como um mal social e estrutural da sociedade. A questão essencial é “relacional-espiritual”, mas esse aspecto é negligenciado pelos governantes. É “relacional” porque a violência e a corrupção, sejam quais forem suas expressões e modalidades, sempre atingem o ser humano. É “espiritual” porque a violência e a corrupção acontecem pelo menosprezo ou desconhecimento da imagem de Deus no próximo. Tudo isso mostra o quanto Deus está interessado em participar da vida das pessoas da cidade.

Precisamos refletir sobre a relação entre violência e ausência de ética (que o texto bíblico chama de “corrupção da conduta humana”). Nessa relação, “violentar ou praticar a violência é cometer um ato contra a ética, pois ética é um conjunto de valores morais e princípios que norteiam a conduta humana na sociedade. A ética tem a função de orientar o equilíbrio nas relações sociais, institucionais e políticas, a fim de que não haja prejuízo para nenhuma das partes”.1

As igrejas cristãs exercem um papel fundamental como “construtoras” da conduta humana na sociedade. Elas podem e devem cuidar para que, em sua missão, a cidade preserve a “imago Dei” no meio da sociedade. Farão isso à medida que compreenderem sua função como “unidades promotoras de paz e como unidades construtoras da ética”, que refletem os valores da Palavra de Deus e seu reino.

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Nota

1. MINAYO, Maria Cecília de Souza. “Violência e saúde”. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2006.

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