Home
http://www.revistaadventista.com.br/wp-content/uploads/2016/01/Campo-ou-cidade-1024x683.jpg

Avaliação do Usuário

Estrela inativaEstrela inativaEstrela inativaEstrela inativaEstrela inativa
 

Um filho no templo

Meus pais eram zeladores de uma igreja católica na cidade de Marília, interior de São Paulo. Ali no templo, todos os dias, eu ficava com minha mãe e a via limpando os bancos, lustrando as imagens. Enquanto isso, eu ficava brincando, passando por debaixo dos bancos. Minhas irmãs encontraram um grupo de pessoas da Igreja Presbiteriana e aos poucos toda a família foi para lá. Resultado: meus pais passaram a ser zeladores dessa igreja. Novamente estou no templo, tendo contato com pessoas religiosas, sendo influenciado pelas coisas da igreja. Era Deus me preparando. Mas disso eu não sabia. Ali naquela igreja havia um grupo de pessoas intimamente ligadas ao ministério Palavra da Vida, de Atibaia/SP, onde bem mais tarde, aos quinze anos, acontece minha real conversão ao Senhor.

 

Um pobre entre os ricos

Meus pais mudaram-se para a grande cidade de São Paulo e ali minha peregrinação em missão começa a tomar rumos. Fomos parar na Igreja Presbiteriana Unidade de São Paulo. Meu irmão, que já morava em ali, freqüentava essa igreja. Uma igreja que na época composta de pessoas da classe média e alta. Imagine uma família pobre chegando nessa igreja, tendo que lidar com essa nova cultura. No primeiro culto em que fui, estava calçando uma botina e nem qual roupa, mas sei o apelido o ganhei: jegueira! Um moleque pobre, com sotaque de caipira, não conhecia ninguém e teria que se relacionar com amigos que possuíam belas casas e comidas finas. Eu nunca tive a noção para que serviu aqueles muitos talheres nas mesas e sempre esperava os outros começarem a comer para eu saber qual deles deveria pegar. Passei muitas vergonhas e fui motivo de risos. O desprezo dói. Ao poucos meus amigos foram percebendo outras coisas em minha vida e no final passei a ser amado por eles. A pobreza torna a pessoa esperta e criativa. Cheguei a ser o presidente da UPA (união Presbiteriana dos Adolescentes). 

 

Com a chegada do Rev. Denoel Nicodemos Eller, um homem de coração simples e sensível que gastou tempo comigo. Comecei a ser despertado para o ministério pastoral. Nunca me esqueço de uma viagem até Campinas, para visitar o Seminário Presbiteriano do Sul, que ele me convidou. Dirigindo seu carro ele me disse: “Jorge, não sei porque eu estou pastoreando essa igreja. Ela está cheia de doutores, gente intelectual e rica. Todas as vezes que subo no púlpito eu fico tremendo. Mas Deus me tem força”. Pensei comigo, “esse homem é sério, conhece seus limites, mas sabe do seu valor e que em Deus pode ir adiante”. Essa experiência foi tão forte e minha admiração por ele crescia a cada dia. E foi num desses dias que Deus me chamou para...

 

O ministério pastoral

Esse pastor querido estava pregando e no final de sua mensagem fez um apelo para todos os presentes no culto. “Quem nessa manhã sente que Deus está chamando para ser pastor, fique em pé, e vou orar por você”. Foi algo imediato. De pronto fiquei em pé, achando que dezenas de pessoas fariam o mesmo. Você já sabe o que aconteceu. Isso mesmo: apenas eu estava em pé. Olhei rapidamente para os lados e imediatamente sentei, morrendo de vergonha. As pessoas esboçaram rir, quando o Rev. Denoel disse: “Filho, pode ficar em pé. Não tenha vergonha. Pelo jeito é com você que Deus está falando hoje”. Fiz o que ele me pediu, orou e pediu a bênção de Deus sobre esse propósito.

 

Alguns amigos já estavam me esperando no pátio da igreja e quando cheguei perto lá se veio o comentário em tom de brincadeira, “Quer dizer que agora temos o pastor-jegueira”. Todos riram. Não era para menos, um caipira, de família simples, pensar em ir ao seminário em uma igreja que só teve pastores de renome. Muita petulância.

 

No ano seguinte me apresentei ao Conselho da Igreja, numa sala imponente, com os presbíteros todos ali, e a pergunta veio por parte de algum deles: “Jovem, por que você que ser pastor?”. Prontamente respondi, “para servir a Deus”. Ele respondeu, “mas você não poder servir a Deus sem ser pastor?” “É, posso sim”, falei timidamente. Ele retrucou, “então nos diga porque você que ser pastor”. E minha resposta foi, “não sei, só sei que quero”. Sai da sala para eles decidirem e quando me chamaram, todos olham para mi e um deles diz: “jovem, gostamos da sinceridade do seu coração e vamos te enviar para o seminário”. Sai dali com lágrimas nos olhos.

 

Seminário Rev. José Manoel da Conceição

Em 1983 fui estudar no Seminário Rev. José Manoel da Conceição que pertencia a Igreja Presbiteriana do Brasil e ligado a Universidade Mackenzie. Esse era um seminário recém criado e, portanto, essas primeiras turmas foram cobaias do projeto. Nossas aulas eram ministradas na Igreja Presbiteriana do Calvário. Era um seminário de linha dura, conservadora com uma teologia voltada para a igreja. O diálogo existia entre os iguais. Os diferentes eram tidos como liberais e progressistas. Esse enquadramento me foi dado quando eu passei a entrar em contato com um ministério que viria a ser um referencial em minha vida e ministério: a Sociedade de Estudantes de Teologia Evangélica, chamada de SETE.

 

A SETE

Entrei em contato com a SETE por meio do Douglas Spurlock, que foi missionário no Brasil pela SEPAL (Serviço de Evangelização para a América Latina). Ali conhecia pessoas como o Luís Wesley, Wilson Costa dos Santos, Roberto Nobuyuki Handa, Glauber Meier, Júlio Zabatiero, Célio Voigt, Ed René Kivtiz e Ricardo Agreste.

 

A SETE tinha por objetivo investir em seminaristas de todo o Brasil. Realizava encontros para seminaristas, em Águas de Lindóia, Poços de Caldas e tantos outros lugares. Preletores renomados participaram conosco. O livro, Novos ministros para uma nova realidade, do Caio Fábio, é fruto do tema e a SETE pediu para que ele ministrasse. Nessa ocasião reunimos 600 seminaristas vindos de todas as partes do Brasil. A SETE publicava o Boletim Teológico, que servia de subsídio para os seminaristas e também criou o chamado Clube do Livro, oferecendo livros a um custo bem reduzido e possui a Informativo, para divulgar e comunicar os trabalhos.

 

Era nítida a influência da SETE em minhas reflexões e trabalhos realizados no seminário. Logo ganhei a fama de liberal e fui proibido de divulgar a SETE no seminário e não podia distribui nada relacionado a ela. Discriminado por muitos, segui radiante com esse ministério, pois eu estava bebendo de uma fonte teológica que jamais iria morrer. Minha peregrinação em missão passa fundamentalmente pela SETE. Sou eternamente devedor a esse ministério, aos meus companheiros de caminhada com ela, e de maneira especial ao mentor de todos nós, um dos homens mais fantásticos que conhece em minha vida, o amado Douglas Spurlock, tendo ao seu lado o doce Joyce, sua esposa. O Douglas nos marcava por sua criatividade, visão sempre à frente do tempo, discipulador por excelência, instigador, senso de humor aguçado e muito carinhoso. Coloquei minha cabeça a prêmio nessa época, como também vários dos meus companheiros. Disso nunca me arrependi e nem tive medo. Simon Bolívar disse: “cuida da tua integridade que Deus cuidará da tua reputação”. A instituição pode roubar de nós algumas coisas, mas jamais terá a capacidade de roubar a nossa vocação.

 

O lema da SETE era: “Ser líderes fiéis e eficazes”, por meio de quatro metas: 1. Homens e mulheres de Deus; 2. Filosofia bíblica de ministério; 3. Liderança na expansão do Reino de Deus; 4 Teologia bíblica, contextual e Brasileira.

 

Seminário Presbiteriano do Norte

Em 1984 rumei para a cidade de Recife, me transferindo para o Seminário Presbiteriano do Norte. Estando ali e profundamente ligado a SETE, junto com Nobu Handa, levamos a SETE para o Nordeste Brasileiro. Abrimos lá a casa da SETE, que também tinha em São Paulo, servindo de apoio aos seminaristas. Vários encontros forma realizados, sendo o primeiro deles com o querido Dr. Russel Shedd, na Palavra da Vida. Dali a SETE se espalha pelo nordeste e vários líderes locais se unem, como o Paulo Maurício Lomba e Sergio Francisco do Santos. Mais tarde o Wilson Costa dos Santos muda-se para Recife, som sua família, para ser o Coordenador da SETE-Nordeste.

 

Ali no nordeste percebi a urgente a necessidade de uma teologia bíblica, contextual e brasileira. Isso certamente não agradava alguns líderes na época (e nem nos dias atuais). A palavra que eles achavam que deveria ser usada era aplicação da teologia e não contextualização. Hoje, quando uma pessoa não fala de contextualização, não é séria missiológica e teologicamente falando. Uma coisa que aprendi me minha peregrinagem em missão é que os conceitos mudam e as pessoas também. A SETE foi esse fundamento da minha peregrinação; a Fraternidade Teológica Latino Americana o descortinar de uma aventura e imersão na teologia latino-americana.

 

Fraternidade Teológica Latino-Americana (FTL)

Sem dúvida a FTL foi esse outro movimento que me coloca em contato com a uma teologia que iria fazer sentido a minha existência. Na SETE já trabalhávamos o conceito de missão integral. Eu mesmo escrevi um artigo no Boletim Teológico de julho/setembro de 1988, vol. V, nº 10, A teologia da missão integral da igreja (holismo) como ética de alternativa social.  Timóteo Carriker escreve para o BT º 21 o artigo, O crescimento integral da igreja. Já conhecendo esse conceito, na FTL entro de cabeça, passo a ser um amante da teologia latino-americana e entro em contato com os teólogos latino-americanos, não por meio de livros e textos, como também pessoalmente, nos muitos encontros e reuniões na América Latina. Por ser Secretário Exceutivo da FTL-Brasil e Secretário Regional para o Brasil, tendo tido o privilégio de participar do Comitê Diretivo. Na FTL entro com contato com os CLADES (Congresso Latino Americano de Evangelização), participando pessoalmente nos CLADES III e IV, ambos em Quito, Equador. Na FTL aprendi a beber do próprio poço, de uma teologia para a vida e a serviço da Missio Dei.

 

O Fuller Theological Seminary

Em 1996 rumo para a cidade de Pasadena, Califórnia para fazer meus estudos de mestrado e doutorado. Viver como um estrangeiro é uma experiência enriquecedora. Viver em uma cultura que não a sua é vislumbrante. Foi nessa escola multi-cultural, com gente várias partes do mundo, como africanos, indianos, coreanos, latinos, americanos, etc que Deus começa a me converter a cultura do outro, assim como fez com Pedro. Vou estudar na Escola de Missões Mundial (hoje chamada de Estudos Interculturais) do Fuller. Ali tenho o privilégio de ser aluno de missionários, como o Dr. Paul Pierson, que foi missionário no Brasil por doze anos. Eu estudava conceitos missiológicos com professores práticos. Dr. Peirson foi meu mentor no mestrado. Sou um eterno devedor a esse homem, o qual denomino meu segundo pai, pelo carinho, apoio, investimento e cuidado. O Dr. Charles van Engen foi meu mentor no doutorado. Homem irradiante, alegre e vibrante, com uma capacidade integrativa enorme, contador de estórias, missiólogo afinado com seu tempo. Foi com ele que uma das minhas paixões temáticas direcionam minha vida: a missão urbana. Ele me desafiou a pensar a missio Dei a partir de Lucas-Atos. O resultado foi a tese de doutorado, cujo livro publicado no Brasil é De cidade em cidade. Quem passo pelo Fuller é não é impregnado de missão, então passou pelo Fuller, mas o Fuller não passou por ele. Para muitos o Fuller ficou conhecido por sua managerial missiology, focando o crescimento numérico da igreja, tendo Peter Wagner como expoente. Quem apenas vê isso não conhece nada dessa escola e nem de sua teologia. Se conhecemos uma árvore pelos seus frutos, então é hora de falar da Faculdade Teológica Sul Americana, minha paixão e onde minha peregrinação em missão toma mais forma.

 

Faculdade Teológica Sul Americana (FTSA)

Com o propósito de preparar vidas para servir o Reino de Deus é que surge a FTSA, em 1994. Uma escola inter-denominacional, como o Fuller, que tem um olhar para além da formação para a denominação; é formação para missão. Entendemos que a formação teológica deveria ter sua razão de existir na missio Dei a partir das comunidades e instituições que estão a serviço do Reino. Nossa ênfase em uma missiologia pastoral e uma pastoral missiológica atrai vários estudantes do Brasil, da África, América Latina e alguns da Europa e Estados Unidos. A FTSA adota o Pacto de Lausanne em sua confissão de fé, assume o compromisso de fomentar e difundir a missão integral. Os estudantes são expostos a esse conceito que se desemboca na prática por meio dos muitos ministérios que eles criam em suas cidades, das igrejas que passam a pastorear e fundar. O corpo docente da FTSA é comprometido com a missão integral. Dessa forma, desejamos ver a renovação da igreja e da sua missão por meio da formação desses líderes que passam pela FTSA. Reconhecemos que somos um instrumento, dentre outros, promotores da missão integral no Brasil e América Latina. Não se trata aqui de presunção, mas vocação.

 

Conclusão

O único que pode nos convencer e converter a missão é Deus, por meio do seu Espírito. Deus é Deus em missão, é o missional God, que por sua vez, quer uma missional church. Meu compromisso de vida, nessa peregrinação em missão é fazer parte do movimento do amor de Deus para a humanidade. Nesse movimento o Espírito de Deus sempre esteve à frente e sempre estará. Quem ama a Deus, ama o que Ele ama – o mundo – o lócus da missão de todos nós. Sou um peregrino, um andarilho, um caminhante, não sem rumo e muito menos perdido, que como discípulo de Cristo, ama o Pai e sua missão.

 

Esse artigo é de autoria de Jorge Henrique Barro. Você tem permissão para usar, desde que citada a fonte.

Newsletters

Inscreva para receber as novidades de Missão Urbana. Indique alguém, basta inserir o nome e email. Obrigado!

Minha agenda

Férias!!!